Guerra no espaço? Confirmação de que EUA têm armas em órbita acirra disputa com China e Rússia
A confirmação dos Estados Unidos de que mantêm armas em órbita pode acirrar a disputa com a China e a Rússia no espaço, segundo especialistas ouvidos após a declaração do secretário da Força Aérea americana, Troy Meink. Em evento nos EUA na segunda-feira (14), ele afirmou que o país possui "armas de controle espacial em órbita capazes de defender a Força Conjunta contra ações hostis de adversários".
Para Craig Albert, diretor do programa de mestrado em estudos de inteligência e segurança da Universidade de Augusta, o fato de Washington não ter detalhado quais armas mantém no espaço pode estimular uma corrida armamentista. "Na ausência de informações completas, concorrentes podem presumir que os sistemas ameaçam seus próprios ativos espaciais e investir em capacidades antiespaciais ou em armas comparáveis", disse à agência Reuters.
O professor Carlos Frederico Coelho, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), concorda com a avaliação. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele afirmou que, diante de uma assimetria de informação, os adversários tendem a presumir o pior, citando principalmente China e Rússia. O professor lembrou que os dois países testam armas antissatélite há algum tempo e que o Tratado do Espaço Exterior, da década de 1960, proíbe apenas armas de destruição em massa em órbita, não armas convencionais. "Era uma corrida que já existia: o que mudou foi o comunicado, a franqueza", disse.
Um relatório da Força Espacial americana, atualizado pela última vez em julho, apontou que a China desenvolve capacidades espaciais e contraespaciais voltadas a obter vantagem estratégica na região do Indo-Pacífico. O documento cita avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA segundo a qual o Exército de Libertação Popular pretende implantar armas antissatélite capazes de alcançar a órbita geoestacionária, a 36 mil km de altitude. Sobre a Rússia, a Força Espacial afirmou que o país implantou prováveis protótipos de armas antissatélite orbitais na órbita terrestre baixa entre 2017 e 2025 e desenvolve um satélite projetado para transportar uma arma nuclear.
Pequim e Moscou reagiram com indignação à confirmação americana. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, condenou o que chamou de "corrida armamentista" espacial e instou os EUA a parar de expandir capacidades militares no espaço. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que a Rússia acredita que o espaço deve estar livre de qualquer arma e defendeu a desmilitarização completa do setor. Coelho avalia que a declaração americana tem caráter de dissuasão e que o cenário mais provável não é um conflito declarado no espaço, mas uma crise na Terra com potencial ataque a satélites. Ele alerta que o risco maior é a ausência de regras, já que comunicações como GPS, previsão do tempo e telecomunicações dependem do espaço. "Uma guerra em órbita não fica em órbita: os efeitos são sentidos na Terra", afirmou.
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