Cerco econômico de Trump deixa cubanos desesperados por comida e remédios
Milhares de contêineres com comida, remédios e outros bens destinados a Cuba estão retidos em portos de vários países do Caribe desde que duas grandes empresas de transporte marítimo interromperam as entregas na ilha para evitar sanções dos Estados Unidos. A informação é de diplomatas, autoridades cubanas, comerciantes e outros envolvidos nas importações.
Entre a carga parada há itens de ajuda humanitária, como painéis solares, medicamentos e bolsas de colostomia. Dezenas de contêineres comprados por diferentes agências das Nações Unidas estão entre os retidos. Em janeiro, o governo dos EUA impôs um bloqueio de petróleo a Cuba. Em maio, ampliou a pressão ao anunciar que empresas estrangeiras que trabalhassem com certas entidades estatais cubanas poderiam ter ativos congelados e ficar impedidas de negociar com empresas e bancos americanos. Pouco depois, a alemã Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM — que, segundo especialistas, juntas entregavam ao menos metade das importações cubanas, incluindo a maior parte dos alimentos — pararam de fazer entregas na ilha.
A médica cubana Valia Rodríguez, que dirige a instituição de caridade Aid for the Caribbean, afirmou que um contêiner da Hapag-Lloyd com mais de US$ 500 mil em kits de reanimação, bolsas de colostomia e tubos intravenosos saiu da Irlanda do Norte em abril e chegou ao Porto de Mariel em 4 de junho, um dia antes de as novas sanções entrarem em pleno vigor. Segundo ela, a empresa decidiu não descarregar os contêineres, que foram enviados ao Panamá, onde a instituição diz ter pago mais de US$ 6 mil em taxas de armazenamento. "Neste momento, as pessoas em Cuba estão usando sacolas de compras, porque não há bolsas de colostomia", disse Rodríguez.
O coordenador da ONU em Cuba, Francisco Pichón, afirmou que as sanções estão travando o esforço humanitário porque os transportadores temem correr riscos. Ele descreveu o fenômeno como "sobrecumprimento", uma precaução excessiva das empresas para não se exporem a sanções. Até a semana passada, o esforço humanitário da ONU aguardava a entrega de 30 contêineres com kits de tratamento de água, antibióticos, anticoncepcionais e testes de gravidez. A falta de querosene de aviação também reduziu o tráfego aéreo para Cuba, interrompendo outra rota de entrega. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, milhares de frascos doados de doxorrubicina, medicamento contra o câncer, não conseguiram chegar à ilha após várias companhias aéreas suspenderem voos para o país.
O embaixador de Cuba na ONU em Genebra, Rodolfo Benítez Verson, disse ao Conselho de Direitos Humanos que mais de 7 mil contêineres com destino à ilha estavam retidos. O governo cubano informou que 100 mil pacientes aguardavam operações, incluindo 12 mil crianças. As exportações brasileiras e mexicanas para Cuba caíram mais de 90% em julho na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo estatísticas oficiais dos dois países. O Departamento de Estado dos EUA declarou que as sanções responsabilizam o regime cubano e seus financiadores, e o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que, se Cuba vive um desastre humanitário, isso decorre de seu modelo econômico.
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