'Não tenho notícias dele há quase cinco anos': as mães que procuram seus filhos no sistema prisional do regime de exceção de Bukele em El Salvador
Há quase cinco anos, Marcela Alvarado não tem notícias do filho, José Duval Mata Alvarado. Ele foi detido por soldados em 18 de abril de 2022, na comunidade rural de La Noria, em Jiquilisco, no sudeste de El Salvador, quando voltava para casa após um dia de trabalho como motorista de trator. Apesar de afirmar que era inocente, foi levado e acusado de "associações ilícitas", conforme relata a BBC News Mundo.
A detenção ocorreu logo após a entrada em vigor do regime de exceção, decreto de emergência que suspende direitos constitucionais e é o principal instrumento da política de segurança do governo de Nayib Bukele. Temporário por definição, o decreto vem sendo prorrogado mensalmente há mais de quatro anos, o que gera críticas de organizações de direitos humanos locais e internacionais, que apontam detenções arbitrárias e sem ordem judicial.
Segundo a reportagem, dois juízes ordenaram a libertação imediata de Mata, decisões às quais a BBC News Mundo teve acesso. Ainda assim, sempre que sua mãe comparece à Promotoria ou deixa alimentos e artigos de higiene na penitenciária, funcionários garantem que ele continua preso no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot). A peregrinação de Alvarado já dura quase cinco anos e passou por delegacias, tribunais e outros centros de detenção.
De tanto se encontrarem nesses locais, mulheres como Alvarado se uniram espontaneamente, primeiro na região do Baixo Lempa, no sul do país. Hoje formam um coletivo de centenas de mulheres chamado Mulheres pela Liberdade, que reivindica direito à informação, a visitas familiares e a julgamentos justos e individuais. "Todas nós estamos passando por uma situação muito parecida e, quando nos reunimos, sentimos que a dor não é mais de uma só, mas do grupo", diz Liliana Urías, que viu o filho Merlon pela última vez em 30 de março de 2022 e, pouco mais de um mês depois, teve o marido detido.
Uma reforma da Lei contra o Crime Organizado estendeu o prazo da detenção provisória e permitiu julgamentos coletivos, que chegam a reunir 900 acusados. Organizações de direitos humanos rejeitam esses processos, que ameaçam o acesso à justiça e à defesa. A medida busca acelerar o sistema judicial e processar os casos de mais de 91 mil detidos e acusados de vínculos com grupos criminosos. A ofensiva reduziu drasticamente o índice de homicídios no país, mas deixou El Salvador com um dos índices de detenções mais altos do mundo.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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