Por que jovens chineses são tão fascinados com Mao Tsé Tung, cuja morte completa 50 anos?
Vídeos com aparições do falecido líder chinês Mao Tsé Tung acumulam milhões de visualizações na plataforma Bilibili, onde quase 60% dos usuários têm entre 18 e 24 anos. As compilações reúnem cenas extraídas de filmes e séries de TV que retratam diferentes fases de sua vida — da juventude ao período como comandante militar e líder na gestão das relações da Guerra Fria entre China, Estados Unidos e União Soviética. Nos comentários, multiplicam-se elogios como "Viva o grande homem".
Muitos jovens se referem a Mao como "Mestre" ou "Professor", e não pelo nome. O título tem origem específica: durante um encontro com o jornalista americano Edgar Snow, em 1970, Mao teria dito que não gostava de títulos como "Os Quatro Grandes" — slogan que o elogiava como grande professor, líder, comandante e timoneiro durante a Revolução Cultural — e comentado que restava apenas "Professor, porque eu sempre fui um professor".
Outro indicador da tendência é que, a partir de 2019, o livro Obras Selecionadas de Mao Tsé Tung tornou-se a obra mais emprestada da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, mantendo a posição nos anos seguintes. O interesse atual difere da narrativa com que a geração anterior cresceu: em 1981, sob a liderança de Deng Xiaoping, o Partido Comunista Chinês adotou uma resolução que equilibrava conquistas e erros de Mao, resumida como "70% conquistas, 30% erros". Nos governos de Deng e depois de Jiang Zemin, os retratos de Mao desapareceram gradualmente de estações ferroviárias, praças e salas de aula.
Especialistas relacionam o fenômeno a percepções sobre desigualdade de riqueza e declínio da mobilidade social. Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden, afirma que os jovens de hoje enfrentam realidade muito diferente da das gerações anteriores: seus pais viveram uma época em que o crescimento econômico parecia elevar o padrão de vida de todos, enquanto muitos jovens agora se sentem deixados para trás. Segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China, a taxa de desemprego urbano entre jovens de 16 a 24 anos que não estudam subiu para 17,9% em julho de 2026, o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística três anos antes.
Termos como "996" — trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana —, "ficar deitados" e "involução" passaram ao vocabulário cotidiano. Nesse contexto, as críticas de Mao ao capitalismo encontram eco em parte dos jovens. "O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia", diz Schneider. "Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que vivenciam." A avaliação oficial do partido segue baseada na resolução de 1981, e a terceira resolução histórica, de 2021, situa a revolução de Mao como a fase em que a China "se ergueu" e lançou as bases para o rejuvenescimento nacional.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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