Mymba Kuéra: como foi o monumental resgate de mais de 30 mil animais durante a construção de Itaipu, entre o Brasil e o Paraguai
O engenheiro agrônomo paraguaio Darío Pérez Chena tinha 43 anos quando liderou, no lado paraguaio da construção da usina de Itaipu, um dos maiores resgates de fauna silvestre da história da América Latina. Ele dirigiu a equipe que, em 1982, salvou milhares de animais em uma corrida contra o tempo, resgatando desde macacos até tatus, cobras e tarântulas.
Pérez Chena trabalhava para a Itaipu Binacional, organismo criado por acordo entre Brasil e Paraguai e encarregado da construção da hidrelétrica no rio Paraná. Com mais de 7 km de comprimento, a usina passou a ser, na época, a maior do mundo. Formado no Paraguai e com pós-graduação na Alemanha, ele era diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai até assumir o novo desafio. Mudou-se com a esposa e os filhos para Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, e tornou-se responsável pela fauna e flora terrestre em Itaipu.
A obra levou nove anos e empregou cerca de 40 mil pessoas. Para trabalhar em terreno seco, foi preciso escavar um canal que desviasse temporariamente o rio. Concluídos os trabalhos em 1982, tudo estava pronto para abrir as comportas e encher o reservatório de cerca de 1.350 km². A área a ser inundada, porém, integrava a Floresta Atlântica do Alto Paraná, um dos ecossistemas mais ricos do planeta, com cerca de 20 mil espécies de plantas e pelo menos 2 mil de animais, entre onças-pardas, onças-pintadas e 400 espécies de aves.
Os preparativos duraram vários anos e incluíram um inventário de toda a área atingida, com botânicos, zoólogos e engenheiros florestais. Cada avistamento era registrado, e os animais identificados também por rastros, como pegadas e material fecal. O inventário serviu de base para a operação, batizada de Mymba Kuéra — "os animais", em guarani —, conduzida por uma equipe de 189 pessoas liderada por Pérez Chena, com apoio de outros 150 profissionais, entre médicos, enfermeiros, pilotos de helicóptero, mecânicos e bombeiros.
O resgate começou em 13 de outubro de 1982, quando as comportas do canal de desvio foram fechadas e a água começou a subir. Segundo o engenheiro, foram salvos apenas os animais que não sabiam nadar. "Alguém me perguntou: 'Quantas onças-pintadas vocês salvaram?' Respondi: 'Nenhuma'. Porque a onça-pintada é uma grande nadadora e não precisa ser salva", contou ele à BBC. A operação se prolongou até 10 de janeiro de 1983.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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