Como um casamento real na Alemanha deu origem à maior festa da cerveja do mundo (e como ela chegou à América Latina)
A Oktoberfest, maior festival folclórico do mundo, nasceu de um casamento real celebrado em 1810, seis décadas antes de a Alemanha existir como país unificado. Naquele ano, o príncipe herdeiro Luís, do recém-proclamado reino da Baviera, desposou a princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen. Em vez de uma cerimônia restrita à aristocracia, a coroa convidou o povo para cinco dias de festa, com a cidade iluminada, ópera e baile gratuitos, além de comida e cerveja custeadas pelo rei em praças e tavernas.
Segundo historiadores citados pela BBC News Mundo, a celebração foi planejada para que comunidades culturalmente distintas se percebessem como uma única nação — uma jogada de afirmação de identidade germânica em plena era napoleônica. O evento culminou em 17 de outubro com uma corrida de cavalos em um campo fora das muralhas de Munique, que reuniu cerca de 40 mil pessoas. Na época, a cidade tinha pouco mais de 40 mil habitantes. O sucesso fez o rei batizar o local em homenagem à nora: nascia a Theresienwiese, o Campo de Teresa, onde a festa acontece até hoje.
A tradição se repetiu nos anos seguintes, ganhou exposição agrícola e, em 1818, as primeiras barracas de cerveja e o primeiro carrossel. Em 1872, reclamações sobre o clima levaram as autoridades a transferir o festival de outubro para setembro, quando os dias são mais longos e as temperaturas, mais agradáveis. A festa foi suspensa durante a Primeira Guerra Mundial e, em 1918, a monarquia bávara deixou de existir. No pós-guerra, sobreviveu como uma versão reduzida, a Pequena Festa de Outono, até retomar o nome original em 1921.
Com a chegada de Adolf Hitler ao poder, em 1933, judeus foram proibidos de trabalhar no festival, e o regime nazista o rebatizou como "festa popular da Grande Alemanha", usando-o como vitrine de uma identidade étnica excludente. A Oktoberfest foi suspensa durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945. No pós-guerra, Munique em ruínas retomou a festa de forma limitada: a cerveja de alto teor alcoólico foi proibida pelo governo militar americano, os alimentos eram obtidos com cartões de racionamento e a feira fechava às 19h por falta de energia. Somente em 1949 a bebida normal foi liberada e o evento recuperou o nome e a dimensão tradicionais.
Hoje, o festival reúne mais de seis milhões de visitantes de todo o mundo, que usam trajes típicos bávaros, como o lederhosen e o dirndl, e consomem cerveja em seis grandes tendas, além de mais de 1,2 milhão de pretzels assados durante o evento. A edição de 2025 recebeu cerca de 6,5 milhões de pessoas ao longo de 16 dias. A abertura é marcada por um ritual: ao meio-dia do primeiro sábado após 15 de setembro, o prefeito de Munique introduz uma torneira de latão em um barril de cerveja e grita "O'zapft is!" (Já está aberta!), seguido de 12 salvas de canhão disparadas da escadaria da estátua da Baviera.
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