O fim da gestora “faz tudo”: por que ETFs avançam e multimercados perdem espaço
Durante anos, o investidor brasileiro concentrou boa parte de sua alocação em um único produto — lógica que ajudou a proliferar os fundos multimercados, segundo o Boston Consulting Group (BCG). Agora, esse modelo começa a dividir espaço com a montagem de carteiras a partir de produtos especializados, combinados conforme a necessidade de cada investidor. É nesse movimento que os ETFs ganham relevância: em vez de um fundo reunindo diferentes estratégias, o portfólio passa a ser montado por blocos.
A conclusão faz parte do BCG Global Asset Management Report 2026, estudo sobre a indústria global de gestão de recursos produzido há duas décadas. Para discutir o relatório e seus reflexos no mercado brasileiro, Clara Sodré e Fabiano Cintra, apresentadores do Outliers InfoMoney, entrevistaram André Xavier e Ricardo Tiezzi, sócios e diretores executivos do BCG.
Segundo o BCG, o Brasil demorou a abraçar os ETFs porque o investidor historicamente tentava obter sua alocação completa por meio de um único veículo — característica evidenciada pela proliferação dos multimercados. A lógica é diferente em mercados como o americano, onde há décadas é comum construir o portfólio a partir de diferentes blocos de classes de ativos. No Brasil, esse modelo chegou primeiro ao private banking e agora avança para a alta renda. “Na hora que eu trabalho com Lego, o ETF é um bloco óbvio”, afirma Xavier. “É eficiente na regulação, na liquidez, em custos e em transparência.”
Os ETFs ainda representam menos de 1% de uma indústria brasileira de fundos de R$ 12 trilhões a R$ 13 trilhões, segundo os executivos. Para Tiezzi, há uma limitação: o ativo adjacente. O mercado brasileiro de ações é menor e menos líquido que o americano, o que restringe o número de combinações possíveis de ETFs. Ainda assim, os sócios do BCG veem espaço para crescimento. “Está começando a decolar e vem com tudo para transformar de uma forma relevante a indústria de fundos no Brasil”, diz Tiezzi.
A mudança vai além da disputa entre ETFs e multimercados. Os sócios do BCG identificam uma polarização crescente na indústria global de gestão de recursos, com uma parte concentrada na gestão passiva, em busca de eficiência de custos, e outra voltada à busca de alfas maiores, com alternativos. “O meio do mercado ficou um pouco esvaziado”, afirma Xavier. Segundo ele, o setor tem retorno intrínseco elevado, mas enfrenta regulação cada vez mais dura e custos crescentes. “Você tem crescimento de receitas, mas inferior aos custos.” Como resposta, cresce a busca por escala — as maiores empresas de asset management no mundo crescem mais rápido que as menores.
No cenário global, os ativos sob gestão chegaram a US$ 147 trilhões em 2025, avanço de 11% em relação ao ano anterior, segundo o relatório. Mas 80% da expansão veio da valorização dos ativos já em carteira, e não da entrada de novos recursos. “Como é que eu consigo voltar a captar?”, questiona Xavier, para quem o crescimento por valorização é incerto. No Brasil, o desafio está na escala: o patrimônio médio de um fundo nos Estados Unidos é 40 vezes maior que o observado no país, segundo o executivo, embora a sofisticação da indústria brasileira seja equivalente ou superior à de mercados desenvolvidos.
Os multimercados brasileiros enfrentam ainda o obstáculo dos juros. Com a Selic em patamares de 14% a 15% ao ano, competir com o CDI tornou-se extremamente difícil para estratégias de gestão ativa. “Se o juro continuar nesse patamar, é muito difícil para alguém que está no multimercado, que está numa gestão um pouco mais ativa, poder ambicionar um crescimento muito alto”, afirma Xavier. Ele avalia que o cenário à frente pode ser mais positivo, com um possível consenso maior sobre a necessidade de ajuste fiscal e queda das expectativas de inflação. “No passado, foi quase um milagre bater a Selic. Já o futuro é mais positivo.”
Para Xavier, a transformação ocorre em duas frentes: no produto e no wrapper, o veículo usado para entregá-lo ao cliente. Do lado dos produtos, ganham espaço itens especializados que podem ser combinados por um alocador ou consultor — desenho em que cada ETF funciona como uma peça da carteira. Do lado do wrapper, ele destaca as carteiras administradas, historicamente pouco usadas no Brasil, mas que podem ganhar relevância na gestão de crédito privado incentivado. O avanço do crédito privado, segundo Tiezzi, é global e não se explica apenas pelos juros altos: “A taxa de juros elevada apenas acelerou o que já iria acontecer”.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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