Lula está usando reajuste do Bolsa Família como arma eleitoral?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou na quinta-feira (17/9) o primeiro reajuste do Bolsa Família em quatro anos. Com o aumento de 15%, o piso do benefício sobe de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio pago pelo programa deve passar de R$ 675 para R$ 777. Os novos valores começam a ser pagos em outubro, a partir do dia 19 — pouco antes da data prevista para um possível segundo turno, marcado para 25 de outubro. O anúncio ocorre a 17 dias do primeiro turno das eleições.
Segundo o governo, o aumento tem como justificativa repor a inflação acumulada desde 2023. A gestão petista argumentava não ver necessidade de ampliar o benefício nos últimos anos, justamente por causa do reajuste expressivo feito em 2022, quando o Auxílio Brasil subiu 50%, de R$ 400 para R$ 600. Após ser eleito, Lula manteve o valor de R$ 600 e o programa voltou a se chamar Bolsa Família.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o reajuste é mais uma iniciativa econômica lançada de olho no possível impacto eleitoral. Ele ressalta que a estratégia não é novidade e avalia que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi ainda mais agressivo ao aprovar no Congresso uma alteração constitucional para ampliar benefícios sociais em julho de 2022, poucos meses antes das eleições daquele ano. A mudança ficou conhecida como PEC Kamikaze e permitiu ampliar o Auxílio-Gás e o Auxílio Brasil e criar benefícios temporários para caminhoneiros e taxistas. Mais tarde, em 2024, o STF considerou essa PEC inconstitucional.
Outra diferença apontada por Cortez é que o aumento anunciado agora é permitido pela lei que rege o Bolsa Família e autoriza o governo a reajustar o benefício pela inflação. Bolsonaro, lembra o analista, alterou a Constituição para contornar limitações a aumentos de benefícios sociais em ano eleitoral, com a justificativa de mitigar os impactos econômicos da guerra entre Rússia e Ucrânia. "O governo Lula é mais modesto nesse voluntarismo eleitoral, mas não deixa de ser um movimento voluntarista", diz Cortez.
O analista político Creomar de Souza explica que medidas econômicas que afetam diretamente o bolso do eleitor podem demorar 90 dias, às vezes seis meses, para se refletir positivamente no voto. Por isso, esse não seria o efeito buscado agora, uma vez que os valores reajustados só começarão a ser pagos em 19 de outubro. Um impacto mais importante, avalia, seria tirar o foco da agenda eleitoral que recaiu sobre a crise no Supremo Tribunal Federal. Segundo pesquisas BTG Nexus divulgadas em 14 de setembro, em eventual segundo turno, 73% dos eleitores do Bolsa Família dizem votar em Lula, contra 23% que responderam votar em Flávio Bolsonaro.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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