Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita
Lançado em 1970, o filme Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, do cineasta italiano Elio Petri, permanece atual ao discutir o que acontece quando o homem encarregado de fazer cumprir a lei acredita que sua posição o coloca fora do alcance dela. A análise consta em texto do colunista Luciano Trigo.
A trama acompanha um alto funcionário da polícia, interpretado por Gian Maria Volonté, que assassina a própria amante. Em vez de esconder o crime, ele passa a deixar pistas óbvias de propósito, para testar se subordinados e o sistema terão coragem de investigá-lo e acusá-lo. O protagonista, chamado apenas de dottore, quer saber até onde pode avançar sem que sua posição o proteja.
Segundo o texto, o que falta não é informação: as pistas existem e os investigadores as encontram. O que inexiste é a disposição institucional de agir. Diante do próprio chefe, a polícia enfrenta uma dificuldade que nenhuma técnica investigativa resolve — como investigar aquele que tem o poder de determinar quem e o que será investigado.
Petri transforma um enredo policial em reflexão sobre a natureza da autoridade. O dottore não é apenas um criminoso com proteção institucional: é alguém que incorpora a função pública à própria identidade. O cargo, que deveria aumentar sua responsabilidade, converte-se em salvo-conduto moral. O cidadão "acima de qualquer suspeita" do título não é o que teve a inocência demonstrada, mas aquele cuja posição tornou a própria suspeita difícil de formular.
O texto observa que o abuso de poder não começa quando alguém declara estar acima da lei, mas antes, quando alguém em posição de autoridade acredita que a regra não se aplica a ele. A impunidade, prossegue a análise, não começa quando as provas desaparecem, e sim quando as provas deixam de produzir efeitos ao envolver uma autoridade. A analogia relevante com o Brasil, segundo o colunista, é institucional: diz respeito ao momento em que uma autoridade incumbida de interpretar ou aplicar uma regra se comporta de modo a tornar impossível contestar sua interpretação.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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