'Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor': os anos sem diagnóstico que levaram jovem a pedir a eutanásia
Melisa Gaona, 26 anos, nasceu em Bogotá e convive desde a infância com endometriose, doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao que reveste o útero cresce fora dele. No caso dela, a doença chegou ao estágio mais grave, comprometendo órgãos e sua rotina. "Dói comer, dói andar, dói evacuar, dói urinar", resume. "Isso já não é normal."
Os primeiros sinais apareceram na infância e se agravaram na primeira menstruação, aos 10 anos. O diagnóstico formal só veio em 2024. No meio do caminho, ela acumulou hipóteses erradas — de apendicite a câncer, passando por transtornos psicológicos — e uma sequência de médicos que, segundo ela, minimizavam o que sentia. "Cólica todas têm", ouvia. Chamaram-na de hipocondríaca. "O que mais me frustra é não ter sido ouvida e atendida a tempo", conta. "Nem minha própria família acreditava. Era eu contra o mundo."
Em 2025, depois de anos de cirurgias, medicamentos e internações sem alívio duradouro, Melisa formalizou um pedido de eutanásia. A ideia surgiu quando estava internada, sob uma única premissa: a de que já não sentia estar vivendo com dignidade. "Não porque eu não quisesse a vida", explica em entrevista à BBC News Brasil, "mas porque eu não queria continuar sofrendo com a dor. O pedido veio mais do desejo de não sentir mais dor." Na época, gravou um vídeo que viralizou, no qual afirmava estar presa em uma espiral de sofrimento. Tornar tudo público foi a forma que encontrou de ser levada a sério, mas a exposição teve um custo: passou a receber mensagens de estranhos mandando que se matasse.
O pedido foi negado. Com acompanhamento jurídico do DescLAB — organização colombiana que litiga pelo direito à morte digna —, ela levou o caso à Justiça por meio de uma ação de tutela, recurso a que recorrem, no país, os pacientes que têm o procedimento recusado. Desde então, repete uma frase: "Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor."
Quando seu pedido foi analisado por uma junta médica de um hospital de Bogotá, em julho de 2025, o procedimento foi negado. Segundo Melisa, a justificativa foi que sua dor não atendia aos critérios previstos na lei e que ainda havia tratamentos a serem tentados, entre eles uma cirurgia. Meses depois, seria justamente uma cirurgia que lhe traria algum alívio. A decisão refletia um ponto central da legislação colombiana: ela não exige apenas sofrimento intenso, mas sofrimento irreversível — o de quem já esgotou as alternativas terapêuticas disponíveis e, ainda assim, não encontra alívio.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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