Eles viram a mãe ser assassinada e foram baleados pelo próprio pai — como irmãos lutaram anos por Justiça
O assassinato de Maristela Just, em abril de 1989, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife, tornou-se um dos casos de feminicídio mais conhecidos de Pernambuco — à época, o crime sequer tinha essa tipificação. O ex-marido, José Ramos Lopes Neto, que não aceitava o fim do relacionamento, reuniu a ex-companheira e os filhos em um quarto da casa dos ex-sogros e disparou contra a família. Maristela, então com 25 anos, foi atingida por três tiros na cabeça. O irmão dela, Ulisses, foi baleado perto da coluna, e as duas crianças também foram alvejadas: a filha mais velha, Nathália, nas costas, e o filho mais novo, Zaldo Just Neto, então com 2 anos e 8 meses, na cabeça.
Zaldo sobreviveu, mas carrega sequelas permanentes. O tiro comprometeu o desenvolvimento motor de todo o lado esquerdo do corpo e provocou uma grave lesão neurológica. Até hoje, relata tonturas e pequenos esquecimentos temporários. "Fiquei órfão da minha mãe, consequentemente do meu pai. Tornei-me uma pessoa com deficiência física por conta daquele que era para cuidar de mim, mas tentou me assassinar", afirmou em entrevista à BBC News Brasil.
Entre o crime e a condenação de José Ramos Lopes Neto passaram-se 21 anos. A defesa ajuizou doze recursos principais ao longo de duas décadas, arrastando o processo por diferentes instâncias, além de pedir a oitiva de testemunhas que moravam fora da comarca original e registrar cinco renúncias sucessivas de advogados. O julgamento, inicialmente marcado para maio de 2010, foi adiado porque nem o réu nem seu defensor compareceram. Em 1º de junho daquele ano, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves determinou que defensores públicos assumissem o caso, e José foi julgado à revelia. Nathália descreveu a dinâmica dos fatos e desmentiu a tese da defesa, que sustentava que os tiros contra as crianças e o tio teriam sido acidentais. Ao final do júri, ele foi condenado a 79 anos de prisão em regime fechado, pelo homicídio e pelas três tentativas.
A prisão, no entanto, só ocorreu em 2012, no Recife, após uma denúncia anônima. Segundo a polícia à época, ele teria se escondido no Piauí, no Maranhão e até no Paraguai. Mesmo após a condenação, a defesa recorreu ao Supremo Tribunal Federal em 2014 para tentar anular o julgamento, sem sucesso. Hoje, José cumpre pena em casa. "Houve a justiça, por mais retardatária que tenha sido", diz Zaldo.
Formado em direito — profissão que escolheu por ver na Justiça uma possibilidade de acerto de contas —, Zaldo e Nathália lideraram ao longo da vida a luta da família pela prisão do próprio pai, mobilizando protestos, blogs e entrevistas na imprensa local para que o caso não caísse no esquecimento. Ele acaba de lançar o livro Além das Cicatrizes, em que revisita a tragédia familiar e reflete sobre os traumas permanentes de quem perdeu a mãe de forma violenta. "A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país", afirma. "São 37 anos desde o assassinato da minha mãe, no mínimo duas gerações novas cresceram, e os números só aumentam."
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar