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Virando emergente? Por que os EUA podem precisar “imitar o Brasil” para domar dívida

Atualizado em 29/08/2026 às 09:35 schedule 4 min de leitura visibility 1 visualizações share 0 compartilhamentos star star star star star (0)
Virando emergente? Por que os EUA podem precisar “imitar o Brasil” para domar dívida

Pressão sobre títulos longos aproxima gestão da dívida americana de prática comum em emergentes

Cinco anos após o susto inflacionário que forçou o Federal Reserve a elevar juros em ritmo acelerado, os Estados Unidos enfrentam um problema tipicamente associado a economias emergentes: a dificuldade de financiar a dívida em prazos longos a um custo aceitável. O rendimento do título americano de 30 anos atingiu em agosto o maior nível desde 2007. Em resposta, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dobrou para pelo menos US$ 4 bilhões por operação o tamanho do programa de recompra de papéis longos. Os papéis reagiram de imediato, mas devolveram os ganhos no dia seguinte e não saíram do lugar mesmo após o discurso duro do presidente do Fed.

Diante da persistência do problema, analistas apontam a próxima alavanca: cortar a emissão de títulos com dez anos ou mais, com risco elevado de redução nos leilões de 20 e 30 anos já em novembro. Na avaliação de Mark Cabana e Meghan Swiber, do Bank of America, o que está em jogo é o abandono do arcabouço “regular e previsível” que rege a gestão da dívida americana desde os anos 1980. A pressão sobre as taxas longas torna relativamente mais atraente rolar a dívida pública na ponta curta, estratégia que tende a ganhar espaço. A necessidade é grande: os juros da dívida americana somaram perto de US$ 1,2 trilhão nos primeiros dez meses do ano fiscal, alta de 15% na comparação anual.

O encurtamento da dívida é comum em países como o Brasil, onde o movimento está em estágio mais avançado. Metade da dívida pública federal está atrelada à Selic, e o Tesouro Nacional revisou nesta semana o plano de financiamento para elevar a até 53% a fatia esperada desses títulos ao fim do ano. O mecanismo é diferente — no caso brasileiro, o encurtamento vem da indexação e não do vencimento do papel —, mas o resultado converge: o governo perde a capacidade de travar o custo do endividamento por períodos longos. As diferenças entre os dois casos, porém, permanecem grandes. Os EUA se financiam na moeda de reserva internacional e operam o mercado de títulos mais líquido do mundo, condições que o Brasil não tem.

Embora o encurtamento no perfil da dívida seja comumente associado a emergentes, o Merrill Lynch Wealth Management, braço de gestão de patrimônio do BofA, aponta que nem sempre esse é o caso. Os estrategistas lembram que as emissões curtas foram também o caminho seguido pelo Japão, que vem reduzindo o déficit primário ao tomar emprestado em larga escala na ponta curta a juros próximos de zero e gastar para elevar o PIB nominal. O Merrill também relativiza o alarme com o tamanho do endividamento dos EUA, defendendo que o número relevante não é os US$ 40 trilhões que tomou as manchetes, mas sim a dívida em poder do público, em torno de US$ 32 trilhões, ou aproximadamente 100% do PIB, patamar que considera administrável.

Os ganhos estimados, no entanto, são limitados. Um corte de cupons na escala do ciclo de 2021 e 2022 valeria cerca de 20 pontos-base no rendimento de dez anos até o fim de 2028, e o cenário extremo, com o fim dos papéis de 20 e 30 anos, chegaria a 53 pontos-base, segundo cálculos do BofA. Os precedentes históricos também sugerem cautela: o Tesouro americano descontinuou o papel de 20 anos em 1986 e suspendeu o de 30 anos em 2001, e nos dois episódios a curva achatou, mas o juro de dez anos não caiu de forma duradoura. Cortar papel longo tampouco reduz a necessidade de financiamento, com um volume de vencimentos alcançando até US$ 323 bilhões já em 2028 — ou seja, o risco de prazo seria trocado por um risco de refinanciamento.

Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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Por Ivan Marra

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