Por que o Ibovespa cai enquanto Wall Street bate recordes? 5 fatores explicam
Ibovespa acumula queda de 6% em agosto enquanto S&P 500 renova recordes; veja 5 fatores
O mês de agosto escancara a diferença entre as bolsas brasileira e americana. Enquanto o Ibovespa acumula queda superior a 6%, o S&P 500 e o Nasdaq operam no campo positivo, com o índice mais amplo de Wall Street renovando máximas históricas. Na quinta-feira (13), o Ibovespa caiu pela oitava sessão seguida, aos 167.100 pontos, enquanto o S&P 500 superou os 7.800 pontos e o Nasdaq avançou 0,81%, aos 26.803 pontos.
A inversão de cenário é notável porque, no início do ano, a situação era praticamente oposta. A Bolsa brasileira foi beneficiada por forte entrada de investidores estrangeiros, expectativa de queda da Selic e rotação global para mercados emergentes — em janeiro e fevereiro, os estrangeiros colocaram R$ 42,6 bilhões na B3. Esse quadro, porém, mudou. A eleição presidencial e as dúvidas sobre a trajetória fiscal passaram a pesar sobre os ativos brasileiros, enquanto parte do capital estrangeiro começou a deixar o País. Nos Estados Unidos, dados recentes de inflação trouxeram alívio sobre os juros e as grandes empresas de tecnologia voltaram a impulsionar os índices.
O primeiro fator que explica a divergência é o cenário doméstico brasileiro. Com a eleição de outubro mais próxima, pesquisas eleitorais e expectativas sobre a política econômica do próximo governo passaram a influenciar os preços. Para o analista Bruno Marin, desde o fim de julho o fator dominante é a eleição, com os pregões reagindo pesquisa a pesquisa. Por trás da questão eleitoral está a preocupação fiscal: investidores tentam antecipar se haverá espaço político para estabilizar a dívida pública e reduzir o prêmio de risco. Casas locais já trabalham com menor exposição a ativos brasileiros, e estrangeiros reduziram posições em real e renda fixa antes do pleito.
Nos Estados Unidos, o noticiário caminhou na direção oposta. O índice de preços ao consumidor de julho trouxe leitura considerada moderada, e o índice de preços ao produtor ficou abaixo das expectativas. Os dados diminuíram a percepção de que o Federal Reserve precisará promover novo aperto monetário na próxima reunião. O analista Bruno Marin avalia que o risco inflacionário americano não desapareceu, especialmente após o choque do petróleo, mas, no curto prazo, os indicadores retiraram parte do risco de alta imediata dos juros.
Há ainda uma diferença na natureza das altas. Parte importante da disparada do Ibovespa até meados do primeiro semestre ocorreu com a rotação internacional para emergentes, com ações baratas e perspectiva de cortes da Selic. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, lembra que a valorização tinha componente relevante de fluxo e expansão de múltiplos. Essa tese perdeu força com a expectativa menos agressiva para os cortes da Selic e o avanço das preocupações fiscais e eleitorais. Em Wall Street, a alta é sustentada por lucros corporativos e pelo entusiasmo com inteligência artificial, o que amplia a distância entre os dois mercados no acumulado do ano: o Ibovespa valoriza pouco mais de 4%, enquanto S&P 500 e Nasdaq avançam em dois dígitos.
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