Por que Lula acusa Trump de tentar interferir na eleição a favor de Flávio Bolsonaro
Quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a eleição presidencial de 2022, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer o resultado, levando 30 minutos para se pronunciar após a Justiça Eleitoral decretar a vitória. Na época, a Casa Branca era comandada por Joe Biden, e o então presidente Jair Bolsonaro (PL) dava sinais de que poderia não acatar a derrota. O rápido posicionamento americano foi apontado por analistas como crucial para esfriar uma possível contestação mais organizada do resultado, inclusive entre setores das Forças Armadas.
Quatro anos depois, quem comanda os EUA é Donald Trump, e as relações entre Washington e Brasília atravessam seu pior momento em décadas. A crise é agravada pela avaliação do governo brasileiro de que Washington vem adotando uma série de medidas para interferir na eleição em favor da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Nas últimas semanas, a BBC News Brasil ouviu analistas, diplomatas brasileiros e estrangeiros e assessores do governo sobre o aumento das tensões às vésperas da eleição.
Na quarta-feira (23/9), a campanha de Lula pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma investigação sobre uma possível ingerência dos EUA na eleição brasileira. A campanha também pediu a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro, afirmando que o senador se articulou com o governo Trump para impactar o resultado das eleições, violando a soberania nacional. O pedido ocorreu dias após a divulgação, pela Folha de São Paulo, de um documento em que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou a possibilidade de interferência dos EUA na eleição ao "nível de criticidade". Segundo a Abin, Washington busca fragilizar o governo Lula por enxergá-lo como resistente à ambição dos EUA de exercer uma hegemonia na América Latina.
Flávio Bolsonaro tem dito que pretende se aproximar dos EUA se for eleito e visitou Trump em maio. Dois dias depois da visita, os EUA anunciaram que as facções PCC e Comando Vermelho seriam classificadas como organizações terroristas pelo governo americano. A medida foi festejada por Flávio e criticada por Lula, para quem a classificação abria as portas para uma intervenção americana no país. Em conversas reservadas com a BBC, assessores do governo citaram outro exemplo do que consideram uma tentativa de interferência: a divulgação, em 15 de setembro, de um relatório do Departamento de Estado americano com críticas ao desempenho do governo brasileiro no combate a facções criminosas.
Em discurso na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (22/9), Lula reagiu. Ele criticou a "ingerência externa em processos eleitorais" e disse que o "Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado", mas que o país não vai "terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras". Afirmou ainda que o "Brasil não cabe no quintal de ninguém".
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