“IPCA+ americano” paga maior juro em 18 anos: veja quanto rende e se vale investir
Enquanto o investidor brasileiro acompanha a queda das taxas reais do Tesouro IPCA+ nos últimos meses, o investidor americano vê seus títulos de inflação pagando o maior juro real em quase 18 anos. O papel de 10 anos do TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities), títulos do Tesouro americano corrigidos pela inflação dos Estados Unidos, entregava, na quinta-feira (24), juro real de 2,81% ao ano, o maior nível desde novembro de 2008, no auge da crise financeira global. Há um ano, a taxa estava em 1,78%, segundo dados do Federal Reserve.
O juro segue bem abaixo do entregue pelo Tesouro IPCA+ de prazo semelhante, e a diferença só é compensada se o real perder valor frente ao dólar ao longo dos anos. A pedido do InfoMoney, Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, calculou esse ponto de empate para dez anos, usando as taxas praticadas na quarta-feira (23): 7,23% ao ano no Tesouro IPCA+ e 2,697% no TIPS de 10 anos. Considerando as inflações americana e brasileira, IOF e Imposto de Renda, o dólar precisaria subir cerca de 6,7% ao ano pelos próximos dez anos para as duas aplicações empatarem. Nesse ritmo, a moeda americana acumularia alta de 91,6% ante o real.
Em uma simulação com R$ 50 mil investidos, o Tesouro IPCA+ sem cupom semestral termina a década com retorno de R$ 140.152 líquidos. O TIPS chegaria a R$ 77.175 com o dólar estável. Se a moeda americana repetir a alta média de cerca de 5,5% ao ano registrada desde o Plano Real, o TIPS chegaria a R$ 125.834, ou R$ 14.319 a menos que o Tesouro IPCA+. Com alta de 8% ao ano, o título americano ganharia por R$ 16.608.
Trevisan reconhece que, pelo retorno esperado, o IPCA+ ainda sai na frente no cenário central. Para ele, a diferença é o preço de manter parte do patrimônio na moeda de reserva do mundo. Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, faz leitura mais cética: em janelas longas, o câmbio real brasileiro tende a voltar à média, com picos violentos no caminho. Por essa leitura, uma depreciação real dessa magnitude sustentada por uma década "não é impossível, mas é bem difícil" — seria um evento de cauda.
Especialistas ouvidos pelo InfoMoney concordam que olhar só a taxa leva à pergunta errada. "Quem compra esperando isso (a alta do dólar) está comprando uma aposta cambial disfarçada de renda fixa", afirma Ronaldo Guimarães, sócio da KAT Investimentos, que vê o TIPS como complemento, e não substituto, do IPCA+. Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Asset Management, sugere que o investidor se pergunte se quer proteger do IPCA ou preservar seu poder de compra. Para Almeida, a troca raramente faz sentido com o juro real no patamar atual, mas poderia se justificar em três situações: para quem tem passivos em dólar, como seguro contra um cenário de cauda no Brasil e como diversificação para quem está concentrado em risco soberano brasileiro. "Em todos esses três casos, a pergunta seria quanto de seguro eu quero pagar, e não qual rende mais".
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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