Pesquisas eleitorais: como funcionam e por que nem sempre acertam o resultado final
As pesquisas eleitorais não têm como objetivo prever o resultado das urnas, mas capturar o que o eleitor pensa no momento em que é entrevistado. A avaliação é do estatístico Raphael Nishimura, diretor de amostragem do Survey Research Center, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Segundo ele, existe uma desconexão entre o que as pessoas esperam que as pesquisas respondam e o que elas de fato respondem. "Se você levar ao pé da letra, o que isso quer dizer é que a pesquisa não tem como papel ser um prognóstico do que vai acontecer na urna", afirma.
Entre o momento da pesquisa e a hora do voto, muita coisa pode mudar: eleitores podem trocar de candidato e os indecisos podem finalmente se decidir. A diretora do Datafolha, Luciana Chong, compara cada levantamento a um retrato do momento e diz que, juntas, essas fotografias formam um "filme" que conta a história da eleição. Ela observa que cada vez mais pessoas deixam para definir o voto muito perto do dia da votação — em 2022, parte dos eleitores decidiu no sábado à noite, depois da divulgação do resultado da última pesquisa.
Esse foi um dos fatores apontados por Chong logo após o primeiro turno de 2022 para explicar por que o então presidente Jair Bolsonaro obteve percentual bem maior de votos do que as últimas pesquisas indicavam. Na época, ela afirmou acreditar que houve um movimento de decisão de última hora favorável ao então presidente, especialmente de eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet, de indecisos e dos que poderiam votar em branco ou nulo. Em meados de agosto daquele ano, a Quaest mostrava 51% para Lula e 38% para Bolsonaro; o Datafolha apontava 54% e 37%. Nas urnas, Lula teve 49% dos votos totais e Bolsonaro, 47% — nos votos válidos, 50,9% e 49,1%.
A decisão de voto pode ser um processo complexo. A cientista política Mariana Borges, professora da Universidade de Southampton, no Reino Unido, estuda o comportamento eleitoral e relata o caso de uma eleitora beneficiária do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família que dizia "rezando muito" para Lula ganhar, mas confessava que não votaria nele — um exemplo do que chama de "voto da família".
Sobre a metodologia, a estatística Fernanda Fiel Peres explica que o cálculo do tamanho da amostra é feito de trás para frente, a partir da margem de erro desejada. Para uma margem de 2%, é necessário entrevistar 2.401 pessoas; para 3%, o número cai para 1.068. Já uma margem de 1% exigiria 9.604 entrevistados, o que tornaria a pesquisa muito mais cara e, em geral, inviável. Quanto maior a amostra, menor a margem de erro, mas essa relação não é linear.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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