O que Lula propõe para enfrentar os sinais preocupantes da economia que terá no 4º mandato
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia seu quarto mandato em 5 de janeiro com a economia apontada por analistas como o principal ponto de atenção do novo governo. Segundo economistas ouvidos pela BBC News Brasil antes da eleição, Lula terá de responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas, lidar com a insatisfação da população com o custo de vida e o endividamento recorde e administrar uma desaceleração da atividade econômica.
O primeiro desafio é o desequilíbrio fiscal. A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, o equivalente a 82,9% do PIB, o maior nível desde a pandemia, segundo o Banco Central. Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), o presidente não pode perder o senso de urgência e precisa apresentar um plano objetivo para a economia e as contas públicas "na primeira hora". "O problema é que o tempo urge", afirmou. Já Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, avalia que Lula tem um desgaste de credibilidade após quatro anos sem controlar o gasto, agravado por promessas eleitorais que ampliam despesas e reduzem arrecadação. Segundo cálculo da Warren Investimentos, o pacote eleitoral criou despesas com impacto de quase R$ 200 bilhões até 2030.
Para Salto, um eventual ajuste deve ser gradual, sob o risco de o país entrar em recessão com um corte muito agudo. Entre as medidas que defende estão o corte de 50% nas emendas parlamentares, a desindexação da Previdência e dos benefícios ao salário mínimo, a submissão da correção dos pisos de Saúde e Educação ao arcabouço fiscal e uma revisão ampla do gasto tributário. Rafaela Vitória aponta como principais medidas de credibilidade a desvinculação de gastos obrigatórios e dos pisos de Saúde e Educação da receita. A economista observa ainda que Lula deverá enfrentar juros futuros e dólar em alta por conta da descrença do mercado, o que pressionaria a inflação e forçaria o governo a adotar medidas impopulares.
O segundo desafio é o crescimento menor. No boletim Focus do Banco Central anterior ao segundo turno, a mediana das expectativas dos analistas era de alta de 1,83% do PIB em 2026 e de apenas 1,32% no ano seguinte, com avaliações de que o resultado pode ficar próximo de 1% em 2027. "A economia já está em desaceleração desde meados de 2025", observou Salto. Para Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, um governo bem-sucedido não será aquele que apresentar os melhores números no período, mas o que deixar uma economia em condições melhores de crescer nos anos seguintes. Os economistas avaliam que nenhum dos candidatos apresentou propostas bem definidas de ajuste fiscal durante a campanha, debate que ficou para depois da eleição.
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