O que esperam os 6 milhões de afegãos deportados de volta ao país governado pelo Talibã
Retorno forçado de afegãos ao país sob o Talibã já soma 6 milhões em três anos, diz Acnur
Mais de 1 milhão de afegãos foram obrigados a retornar ao Afeganistão neste ano vindos do Paquistão e do Irã, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). O movimento faz parte do maior deslocamento transfronteiriço da atualidade: em menos de três anos, cerca de 6 milhões de pessoas voltaram ao país governado pelo Talibã, conforme o porta-voz do Acnur, Charlie Goodlake.
Na passagem de Torkham, na fronteira com o Paquistão, famílias chegam com pertences amontoados e relatam ter vivido décadas no exterior. Muitos, como Nazia, de 35 anos, nasceram no Paquistão e nunca haviam pisado no Afeganistão. "É bom estar no meu próprio país, mas nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer", disse. Outros, como Sarwar, deixaram o país há 45 anos, durante a invasão soviética, e retornam agora com grupos numerosos de parentes.
As expulsões se intensificaram após o endurecimento das políticas migratórias dos dois países vizinhos. O Paquistão afirma que toma medidas para evitar maus-tratos contra afegãos e que eventuais episódios são casos isolados. Já o Irã, que diz abrigar milhões de afegãos sem documentação, intensificou as deportações após o conflito de 12 dias contra Israel e os Estados Unidos em junho. Organizações de direitos humanos denunciam operações de porta em porta, prisões sem mandado e acusações de espionagem contra imigrantes.
Entre os que retornam, há relatos de medo. Um ex-segurança afegão, deportado do Irã e depois do Paquistão, afirmou não confiar na anistia anunciada pelo Talibã após retomar o poder em 2021. "Muitos dos meus colegas foram mortos", disse. Mulheres como Zarina, de 40 anos, temem o futuro das meninas em um país onde o Talibã as excluiu do ensino médio e das universidades. "Olhe para elas, são todas meninas. É claro que estou preocupada."
A situação é agravada por cortes na ajuda internacional e por sanções ao Talibã. O governo do grupo admite necessidade de assistência, mas afirma que o retorno será benéfico no longo prazo. O Paquistão confirmou isenção temporária da deportação para 16 mil afegãos vulneráveis por razões humanitárias, medida bem recebida pela ONU. Estimativas apontam que até 250 mil afegãos no Paquistão ainda correm risco de danos graves, incluindo mulheres e meninas que, se deportadas, perderiam acesso à educação.
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