O mundo precisa de redes elétricas melhores. E elas podem ser menores
O empreendedor sueco Jonas Birgersson decidiu agir depois de ver imagens de satélite da Ucrânia que mostravam uma mancha escura sobre o território europeu, consequência dos ataques russos à rede elétrica do país em 2022. Os apagões deixaram milhões de ucranianos sem eletricidade, aquecimento e água em meio a temperaturas abaixo de zero e expuseram a vulnerabilidade das grandes redes elétricas do continente. "Esse foi o gatilho", afirmou.
Em sua cidade natal, Lund, no sul da Suécia, Birgersson começou a desenvolver um sistema local de produção, armazenamento e compartilhamento de eletricidade. Sua empresa, a ViaEuropa, assinou um acordo com uma associação que representa empresas de habitação em toda a Suécia — juntas, elas administram cerca de 1 milhão de apartamentos. O projeto foi apresentado durante a Climate Week, em Nova York, e já desperta atenção internacional. Kingsmill Bond, diretor da organização de energia Ember, sediada em Londres, classificou a iniciativa como "uma ideia cuja hora chegou".
A proposta se baseia em microrredes inteligentes conectadas entre si, capazes de compartilhar energia de forma semelhante ao funcionamento da internet. Roteadores administrariam a transferência de eletricidade entre os sistemas, e as famílias poderiam, no futuro, pagar uma taxa fixa e baixa pelo serviço, como ocorre com a banda larga. "Muitas. Pequenas. Baratas. Orquestradas digitalmente", resume Birgersson. Segundo ele, sistemas descentralizados seriam mais baratos de construir e operar, permitiriam transmitir energia renovável com menor risco de sobrecarga e seriam mais resilientes, por não dependerem de um único ponto crítico de falha.
Um dos projetos-piloto já está em operação em Lund: um edifício que reúne apartamentos, escritórios, espaços comerciais e uma garagem produz parte de sua energia com painéis solares no telhado, armazena a eletricidade em baterias e a compartilha entre empresas e moradores desde abril de 2025. Agora, a equipe trabalha na modernização de um conjunto habitacional público dos anos 1960, com 10 edifícios e 278 apartamentos. Henrik Adamsson, gestor de energia da autoridade municipal de habitação de Lund, afirmou que a energia produzida localmente tem "potencial para reduzir nossos custos operacionais no longo prazo".
A discussão sobre descentralização ganha espaço na Europa. O Plano de Ação para Redes Elétricas da União Europeia afirma que as redes precisam ser "mais digitalizadas, descentralizadas e flexíveis". Um projeto financiado por um conselho de pesquisa do bloco, chamado SAFEr GRID, reúne pesquisadores da Universidade RWTH Aachen, na Alemanha, e da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, para demonstrar que um sistema conectado de pequenas redes independentes poderia funcionar em todo o continente. Para Antonello Monti, integrante do projeto, essa abordagem impediria que um problema local se transformasse em uma falha de escala continental. O braço de pesquisa da OTAN também estuda como a descentralização pode aumentar a resiliência das redes elétricas.
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