'Minha filha de 13 anos sofreu ofensas racistas, sexuais e religiosas após resultado das eleições'
Uma estudante negra de 13 anos, bolsista de uma escola particular de Belo Horizonte, passou a receber mensagens de texto e áudio com ofensas racistas, de intolerância religiosa, preconceito de classe e teor sexual após publicar, em sua conta fechada no Instagram, uma opinião favorável à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 25 de outubro. As mensagens também atingiram a mãe, o pai e a avó da menina.
Segundo áudios aos quais a BBC News Brasil teve acesso, um dos agressores escreveu: "Filha de Exu, elite do Candomblé, o Zé Pilintra é seu pai". Outra mensagem dizia: "Sua pobre desgraçada, minha casa vale R$ 10 milhões, vale mais que sua alma inteira". Muitos dos áudios têm linguagem ofensiva demais para serem reproduzidos, incluindo os que citam diretamente Lula. A família relata ainda que um dos garotos teria enviado à estudante uma foto de suas nádegas.
De acordo com a família, as mensagens partiram da conta de um colega de classe da garota e de outros dois adolescentes que não estudam na mesma escola. O conteúdo foi posteriormente apagado, mas registrado antes pela mãe da menina. "Eu fiquei indignada, não estava acreditando que estava vendo tanta coisa vinda de uma criança – porque, para mim, são crianças ainda", afirmou a mãe, cuja identidade é preservada. "Fiquei muito impactada com as falas deles, com as agressões verbais contra mulheres, porque teve outra colega de sala com quem eles também fizeram isso."
A mãe registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de Minas Gerais em 27 de outubro. O documento qualifica o ocorrido como injúria por meio eletrônico, com causa presumida de racismo. A corporação informou que os fatos são apurados pelo Departamento Estadual de Investigação, Orientação e Proteção à Família (Defam) e que "outras informações poderão ser divulgadas em momento oportuno". Segundo a família, a estudante já havia sofrido outros episódios de agressão verbal na escola, que teria tratado os casos de forma "passiva e protocolar". A mãe diz que não procurou a polícia antes por medo de a filha perder a bolsa de estudos. "Dessa vez, decidi que não iria me calar como me calei outras vezes por medo", afirmou.
O advogado Victor Alves, que representa a família, defende que o caso seja levado à Justiça. "É importante não apenas do ponto de vista jurídico, mas também pedagógico, institucional, social e de proteção integral da criança e do adolescente", disse. Em reunião com a família e o advogado em 3 de novembro, a escola se prontificou a oferecer apoio institucional e jurídico à vítima. Procurada, a instituição — cujo nome é preservado para proteger os menores envolvidos — afirmou que "não compactua com qualquer forma de racismo, discriminação, intolerância religiosa, violência ou constrangimento" e que verifica as informações recebidas, adotando os procedimentos internos cabíveis, sem comentar detalhes do caso específico.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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