Lula pode estar tentando tirar votos da urna — e não levá-los para o PT
A ofensiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) pode ter um objetivo que vai além de tentar conquistar votos do adversário. Segundo a avaliação do cientista político Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política e sócio da consultoria Think Policy, a estratégia passa por fazer com que parte dos eleitores que rejeitam os dois candidatos desista de escolher um deles.
Para Barreto, essa tática ganha importância em uma eleição apertada porque Lula teria pouco espaço para conquistar eleitores que hoje estão em outras candidaturas de direita. "De repente você começa a bater no Flávio, não para conquistar votos para o próprio PT, mas para pelo menos tirar essas pessoas do processo eleitoral", afirmou ele durante o Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney.
A lógica, explica o analista, passa pelo cálculo dos votos válidos. Se um eleitor que rejeita Lula, mas também não gosta de Flávio, decide votar branco, nulo ou não comparecer, ele deixa de integrar a base usada para calcular a maioria necessária para vencer a eleição. Nesse cenário, Lula não precisaria necessariamente conquistar esse voto — bastaria impedir que ele acabasse no candidato do PL.
Barreto relaciona a estratégia à dificuldade do presidente de ampliar sua intenção de voto de forma significativa. Em pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada na quinta-feira (17), Lula aparece com 44% das intenções de voto no primeiro turno, contra 41% de Flávio. No fim de agosto, os números eram 43% e 33%, respectivamente. Enquanto Lula oscilou um ponto, Flávio recuperou oito e voltou ao patamar anterior às crises que haviam atingido sua candidatura.
Segundo o cientista político, o voto recuperado por Flávio é "muito mais antigoverno do que pró-Flávio", o que torna mais difícil para Lula conquistar diretamente os eleitores que ainda estão com outros candidatos de direita. "O presidente Lula está aqui um pouco no teto, ele não consegue mais obter eleitores novos de uma maneira relevante", disse. A alternativa seria elevar a rejeição a Flávio a ponto de parte desse eleitorado preferir não escolher nenhum dos dois. Barreto avalia que o voto de Lula está mais consolidado e, por isso, seria menos vulnerável à estratégia negativa do adversário. "Acho que hoje o presidente Lula aposta até em tentar tirar eleitores da urna para poder ter o maior peso relativo da sua votação", afirmou.
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