Lula ensaia “largar a mão” de Moraes, mas teme consequências
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem ensaiado um descolamento do ministro Alexandre de Moraes em meio à crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Aliados do Planalto tentaram blindar o presidente e separar sua imagem da dos ministros mais alinhados ao governo, tratando a tensão institucional como se não fosse um problema do Planalto. A avaliação no núcleo da campanha, porém, é que a percepção negativa sobre a atuação de Moraes acabou recaindo diretamente sobre Lula.
O presidente voltou a se referir a Moraes como “ministro de [Michel] Temer” e, em entrevista ao SBT na noite de quinta-feira (10), citou nominalmente o magistrado ao tratar do caso Master. “Falta apurar. Quem é culpado de verdade?”, questionou. “Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar.” Lula passou a defender a investigação e eventual responsabilização do ministro caso sejam comprovadas irregularidades. Parte do staff petista considera necessário um posicionamento público mais incisivo para conter o desgaste, e a orientação central é que o presidente peça publicamente que o ministro se licencie da Corte para se defender das revelações recentes sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master.
O movimento já vinha acontecendo. Em abril, em uma conversa reservada com Moraes, o presidente demonstrou preocupação com o impacto das denúncias. “Você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de janeiro”, disse ao ministro. “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia.” Na época, Lula também defendeu que Moraes desse explicações à sociedade e se declarasse impedido de atuar no caso, mas foi desestimulado pela reação de ministros aliados, como Gilmar Mendes e Flávio Dino, que pediram a Lula para não atacar Moraes.
Há resistências ao afastamento. Interlocutores políticos apontam que um eventual “largar a mão” de Moraes seria, no mínimo, desconfortável, sobretudo pelo histórico de decisões do ministro importantes para o projeto político do PT. Moraes teve atuação central no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022 e conduziu processos que atingiram Jair Bolsonaro, além de ter participado de articulações entre o governo e o Congresso. Um dos episódios citados nos bastidores é a articulação para a reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que resultou na votação e aprovação da medida que evitou a volta da cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
Para o estrategista eleitoral Roberto Reis, a tentativa de desvinculação pode criar uma armadilha para Lula. Em sua avaliação, largar a mão de Moraes neste momento pode soar como confissão de culpa. “Lula e Moraes estão vinculados na percepção pública depois de anos de proximidade, e uma tentativa de separação a cerca de 20 dias da eleição poderia produzir mais notícias sobre a relação entre os dois do que efetivamente afastá-los aos olhos do eleitor”, afirma. Reis acrescenta que Lula avalia as consequências e a reação de Moraes a um eventual afastamento: “Lula teme muito uma reação do Alexandre. Se ele não tivesse medo, já teria largado a mão dele há muito tempo.”
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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