'Esqueci segredos de Estado em um trem: sou a prova de que é possível se recuperar do maior erro da sua vida'
O ex-funcionário público britânico Richard Jackson, então com 37 anos, esqueceu em um trem de passageiros dois documentos ultrassecretos que levava para casa. O episódio, ocorrido em uma terça-feira, transformou-se em notícia nacional no Reino Unido e mergulhou sua vida em um período de vergonha e humilhação. Quase 20 anos depois, ele relata o caso em entrevista ao programa Life Changing, da BBC Rádio 4.
À época, Jackson trabalhava no Gabinete do governo britânico, em um posto ligado ao terrorismo global, com acesso a informações de primeira mão dos serviços de inteligência GCHQ, MI5 e MI6. Ele conta que levou para casa uma pilha de formulários e, no meio do pacote, estavam os dois documentos classificados. Em vez de telefonar ao Gabinete e pedir que alguém recolhesse o material de forma segura, decidiu devolvê-los pessoalmente, acreditando que ninguém ficaria sabendo. Guardou-os em uma pasta de papelão laranja e, na manhã seguinte, no trajeto para o escritório, repetia mentalmente para não esquecê-la. Desceu do trem sem a pasta.
Jackson procurou todas as estações de parada da linha, sem resultado. Ao chegar em casa, desmoronou diante da esposa, Maddie, dizendo que havia arruinado a vida dos dois. No dia seguinte, no trabalho, soube que os documentos haviam sido encontrados e entregues à BBC. Ele diz que sentiu alívio por saber que o material estava em local seguro, até perceber que o caso se tornaria público. Foi suspenso enquanto aguardava investigação e passou a se esconder em casa. O Gabinete do Governo considerou a falta grave e o rebaixou em três níveis. Ele respondeu a processo com base na Lei de Segredos Oficiais, evitou a prisão e foi multado em 2,5 mil libras.
Segundo Jackson, foi no período mais crítico que surgiu a percepção de que não conseguiria superar aquilo sozinho. Ele credita a reconstrução de sua vida ao apoio de pessoas próximas. Voltou ao Ministério da Defesa em um cargo de recursos humanos e depois foi transferido para o Departamento de Cultura, Meios de Comunicação e Esporte, onde trabalhou nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Deixou o funcionalismo público, atuou em uma organização de apoio e chegou a dirigir uma equipe de analistas de riscos do terrorismo global. Posteriormente, fundou uma empresa de coaching voltada a pessoas que lidam com estresse causado pela gestão de material perturbador.
Hoje, Jackson afirma que voltou a ser feliz, embora não considere que tenha perdoado a si próprio. Ele diz valorizar mais a presença em casa e a sorte de ter pessoas importantes em sua vida. Entre os passos que o ajudaram, cita tirar os pensamentos da cabeça e conversar sobre eles, manter atividades prazerosas na rotina, relembrar conquistas e qualidades, contar com alguém que anime e também alerte sobre deslizes, assumir responsabilidade apenas pelo que de fato causou e não confundir o pior momento com toda a história de vida.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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