As tensões e incertezas que envolvem discurso de Lula na ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa nesta terça-feira (22/09) na abertura do debate geral da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em um momento delicado da relação entre Brasil e Estados Unidos. A fala ocorre a duas semanas das eleições brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma nova rodada de sanções do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras.
Como ocorre tradicionalmente desde 1955, o Brasil será o primeiro país a discursar. Trump, como presidente do país anfitrião, falará logo depois. Não há reunião bilateral prevista na agenda, e nenhum dos dois governos apresentou pedido formal para um encontro, segundo informações obtidas pela BBC News Brasil. Uma conversa informal, porém, não está descartada, e a disposição da agenda cria a possibilidade de que os dois se encontrem nos corredores do evento, como ocorreu no ano passado.
Segundo a versão mais recente do discurso, Lula não deve mencionar Trump nominalmente — ao menos não em tom de crítica. A soberania nacional e a defesa da democracia devem ocupar posição de destaque, segundo membros do governo e diplomatas envolvidos no planejamento. O presidente também pretende defender o multilateralismo e mudanças na estrutura da ONU, além de abordar as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a situação em Gaza. Outro tema que ganhou importância nos últimos dias é o combate ao crime organizado, com expectativa de defesa da cooperação internacional no enfrentamento às facções, preservando a ideia de que políticas de segurança no território brasileiro devem respeitar a soberania do país.
Nas relações comerciais, Lula deverá criticar a imposição unilateral de barreiras tarifárias, sem transformar a fala em ataque direto ao governo americano. A intenção, segundo pessoas familiarizadas com as discussões, é encontrar um equilíbrio: apresentar defesa enfática da autonomia brasileira sem um confronto que prejudique a tentativa de melhorar as relações com Washington. Nos bastidores, o governo vem procurando caminhos alternativos de aproximação, diante do entrave nas negociações sobre as tarifas.
Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, um confronto direto com Trump traria poucos ganhos diplomáticos ao Brasil, mas o momento eleitoral impede que o presidente pense apenas na repercussão internacional. "Eu esperaria uma defesa bastante clara da soberania e da democracia, mas não necessariamente com uma fala nominal contra Washington", afirma. Há ainda outro elemento de incerteza: a possibilidade de o governo Trump anunciar novas medidas contra ministros do Supremo Tribunal Federal durante a passagem de Lula por Nova York.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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