Vorcaro forneceu jatinho e Moët Chandon para desembargador viajar a Buenos Aires, mostram mensagens
Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF) e obtidas pela BBC News Brasil indicam que o desembargador federal Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), pediu ajuda ao empresário para viajar de Brasília a Buenos Aires no fim de novembro de 2024, em jatinhos privados vinculados a Vorcaro. Segundo as conversas, o banqueiro teria disponibilizado duas aeronaves para o deslocamento e providenciado bebidas como whisky, cerveja e espumantes das marcas Moët Chandon e Don Pérignon para o magistrado durante o voo.
As tratativas logísticas começaram a ser discutidas em 13 de novembro de 2024, quando Ramos enviou as datas e os pontos de partida e chegada da viagem. Sem resposta, voltou a procurar Vorcaro em 19 de novembro e ouviu "Confirmado" dois minutos depois. Em 23 de novembro, o desembargador perguntou quantos assentos tinha a aeronave e recebeu como resposta o número 9. No dia seguinte, Vorcaro encaminhou o contato de uma pessoa conhecida como "Berg", apontada nas mensagens como responsável pelos trâmites logísticos da frota. Em 2 de dezembro, um dia após o fim previsto da viagem, Ramos agradeceu: "Obrigado pelo apoio no fim de semana".
Em 27 de novembro, uma funcionária de Vorcaro informou ao banqueiro que uma pessoa chamada "Newton" havia solicitado um avião e alertou que não seria possível atender ao pedido, citando restrições de horas de uma aeronave. Vorcaro, no entanto, deixou claro que o pedido deveria ser atendido: "Eu preciso arrumar avião pro Newton". A conversa menciona o prefixo PS-FSW, um jatinho Falcon 2000 avaliado entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, em nome da empresa SPE-FSW, que tem entre os sócios o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. Na véspera da viagem, a funcionária relatou que estava colocando cerveja e Moët Chandon no voo, e o banqueiro pediu que fossem incluídos whisky e Don Pérignon.
As relações entre Ramos, sua mulher, a advogada Camilla Ramos, e Vorcaro ganharam destaque após a revelação de um contrato de até R$ 427 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório da advogada para representar o banco em causas no TRF1 e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) relacionadas a pré-precatórios do setor sucroalcooleiro comprados pelo Master, no valor de R$ 8,5 bilhões. O montante equivale a uma taxa de sucesso de 5% sobre o total dos precatórios em disputa. Na semana passada, Ramos foi alvo de uma operação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com auxílio da PF, depois que o contrato veio à tona.
Mensagens também obtidas pela BBC News Brasil sugerem que Newton Ramos é citado por interlocutores de Vorcaro junto ao termo "Turma do KN". Investigadores da PF suspeitam que a abreviação seja uma referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kássio Nunes Marques, de quem o desembargador foi juiz-auxiliar durante a passagem de Marques pelo TRF-1. Em nota, Nunes Marques afirmou que "nunca votou a favor de Daniel Vorcaro" e que nunca trocou mensagens com ele, reconhecendo amizade com o casal Newton e Camilla Ramos, mas negando ter atuado em favor de ações do escritório da advogada. Camilla Ramos reconheceu o voo, afirmando que foi de sua responsabilidade e teve caráter estritamente particular, sem vínculo comercial, e negou que seus serviços ao Banco Master tenham relação com a atividade de membros do Judiciário.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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