O que está em jogo na primeira decisão do Copom após a reeleição de Lula
O Comitê de Política Monetária (Copom) decide nesta quarta-feira (4) o rumo da Selic em um ambiente de forte volatilidade nos mercados, na primeira reunião de política econômica após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A hipótese que parecia distante até a véspera do segundo turno — de que o ciclo de cortes termine com a taxa em 13,75% ao ano — passou a ser considerada por agentes econômicos.
Nos cinco pregões seguintes à eleição, o Ibovespa acionou o circuit breaker no primeiro dia e emendou cinco sessões de queda, encerrando outubro com o pior desempenho mensal desde junho de 2022. O dólar subiu e os juros futuros dispararam. No Tesouro Direto, os títulos prefixados registraram a maior alta diária de taxas da série histórica iniciada em 2005, e o Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou papéis para conter a volatilidade. Nas opções de Copom negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da Selic, minoritária antes da eleição, chegou a perto de 70% no fechamento de quinta-feira (29), contra cerca de 30% de chance de corte de 0,25 ponto percentual.
Para Guilherme Ghidetti, sócio e CIO da Jera Capital, a reunião ganhou peso por ser a primeira decisão relevante de política econômica depois da eleição, em um momento de incerteza elevada sobre a política fiscal. Leandro Padulla, economista do ASA, afirma que o debate, antes concentrado em quantos cortes adicionais seriam feitos, passou a incluir a possibilidade de interrupção imediata do ciclo de flexibilização monetária. O efeito do choque sobre a inflação está no centro da decisão: cabe ao BC avaliar em que medida a depreciação cambial e o aumento dos prêmios de risco serão persistentes e poderão contaminar as expectativas e as projeções de inflação no horizonte relevante.
O Bradesco projeta corte de 0,25 ponto percentual nesta quarta, para 13,5% ao ano, embora aponte que a alta do petróleo e a desvalorização do real desde a última reunião devem elevar a projeção de inflação do BC. Já Gabriel Magno, da AW Capital, espera um BC mais duro, que pause os cortes. A apreensão vem principalmente das contas públicas: a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, segundo o Banco Central, e a Instituição Fiscal Independente (IFI) calcula impacto de R$ 40 bilhões não previsto no orçamento com a perda de arrecadação com as bets, o pacote para microempreendedores individuais e o reajuste do Bolsa Família.
O comunicado do Copom deve indicar se a porta fica aberta para a reunião de dezembro, a última do ano. Para o investidor, uma pausa mantém o rendimento das aplicações pós-fixadas, como o Tesouro Selic e os CDBs atrelados ao CDI, no patamar atual por mais tempo.
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