'Modelo Bukele' usado em El Salvador não derrotaria PCC e CV no Brasil, diz especialista em segurança pública
O cientista político canadense Robert Muggah, especialista em segurança pública e violência urbana, afirma que o chamado "modelo Bukele" de combate ao crime, adotado em El Salvador, não teria o mesmo efeito no Brasil. Em entrevista à BBC News Brasil, ele argumenta que as principais facções brasileiras, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), possuem estruturas muito mais complexas do que as organizações criminosas salvadorenhas.
Muggah, que é um dos fundadores do Instituto Igarapé e mora no Brasil desde 2011, explica que, enquanto PCC e CV operam como empresas multinacionais, com negócios diversificados, lavagem de dinheiro e conexões internacionais de tráfico de drogas, as facções de El Salvador, como Barrio 18 e Mara Salvatrucha (MS-13), são mais territoriais e possuem marcadores claros de pertencimento, como tatuagens. "Prender em massa integrantes do PCC como se fez com a MS-13 é muito mais difícil por causa da distribuição da facção brasileira tanto no mercado doméstico quanto no internacional", diz.
Desde que Nayib Bukele assumiu a Presidência de El Salvador, em 2019, a taxa de homicídios no país caiu drasticamente. Em 2015, eram mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes; em 2024, o governo local informou uma taxa inferior a 2 por 100 mil. O resultado, porém, veio acompanhado de um regime de exceção decretado em 2022, que permite prisões sem mandado, detenções prolongadas e restrições ao acesso de presos à defesa.
Para o especialista, embora o modelo tenha reduzido a violência, ele trouxe "consequências graves para os direitos civis, o sistema judicial, as prisões e a própria democracia" em El Salvador. Muggah cita a detenção arbitrária de cerca de 86 mil pessoas em um país pequeno, a degradação do devido processo legal e a superlotação carcerária, com a construção do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), com capacidade para até 40 mil pessoas. Ele avalia que o governo de Bukele é "uma democracia apenas no nome, mas com um componente autocrático".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Palavras-Chave
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar