Gloria Steinem, um ícone do feminismo americano que se infiltrou na Playboy para denunciar as condições de trabalho das mulheres
A ativista Gloria Steinem, uma das principais lideranças do movimento feminista nos Estados Unidos, morreu nesta quarta-feira (2/9), aos 92 anos. Conhecida pelos óculos de sol de aviador e pelos cabelos longos com mechas, que considerava um ato de rebeldia na década de 1970, ela se tornou uma figura internacionalmente reconhecida na defesa da igualdade de direitos e salários para as mulheres, da legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Seu ativismo também incluía protestos contra a pena de morte e a mutilação genital feminina.
Nascida em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, Steinem teve uma infância marcada por dificuldades. Filha de um vendedor ambulante, viveu os primeiros anos em uma caravana percorrendo o país. Quando tinha 10 anos, o pai abandonou a família, deixando-a aos cuidados da mãe, que sofria de doença mental e tinha alucinações. Por causa dessa situação, Steinem só começou a frequentar a escola em período integral aos 12 anos. No fim da década de 1950, viajou para a Índia com uma bolsa de pesquisa, onde passou dois anos ajudando mulheres de aldeias a organizar protestos não violentos contra políticas do governo.
Sua grande oportunidade no jornalismo surgiu em 1963, quando se infiltrou na Playboy como garçonete para escrever uma reportagem que expunha a realidade sexista do império de Hugh Hefner. Usando o nome falso de Marie e mentindo sobre a idade, Steinem revelou as condições precárias de trabalho das coelhinhas, que recebiam baixos salários e sofriam dores físicas por causa de horas em salto alto e espartilhos apertados. Apesar da fama trazida pelo artigo, ela continuou enfrentando dificuldades para ser levada a sério pelos editores, que frequentemente lhe atribuíam pautas sobre meias femininas e penteados.
Em 1972, Steinem lançou a revista Ms. ao lado de um grupo de ativistas feministas, a primeira publicação periódica fundada e dirigida exclusivamente por mulheres. A primeira edição se esgotou em uma semana e conquistou 26 mil assinantes. Em 1978, escreveu um dos ensaios mais famosos da publicação, "Se os homens pudessem menstruar", uma reflexão satírica sobre como as estruturas de poder poderiam ser diferentes se os homens tivessem ciclos menstruais. No fim da carreira, tornou-se escritora premiada, autora de memórias, de uma biografia de Marilyn Monroe e de uma coletânea de suas frases mais famosas.
Steinem também foi uma defensora ferrenha do direito ao aborto, termo que preferia chamar de "liberdade reprodutiva". Em uma manifestação de 1969, foi incentivada a contar sua própria história sobre a interrupção de uma gravidez, ocorrida anos antes em Londres, quando tinha 22 anos. Ela organizou marchas e se tornou uma das figuras mais conhecidas dos protestos, embora tenha admitido que falar para grandes multidões era "absolutamente aterrorizante". Após o fracasso do Congresso em aprovar a Emenda de Igualdade de Direitos em 1970, fundou o Caucus Político Nacional de Mulheres, grupo que trabalhava para ampliar a participação feminina na vida política e pública.
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