Fim das bets ameaça fundo do São Paulo FC; como fica o investidor?
A Medida Provisória publicada em 25 de setembro, que proíbe as casas de apostas e seus patrocínios no Brasil, criou para o São Paulo Futebol Clube um problema que vai além da camisa. Parcelas futuras do contrato com a Superbet, maior acordo comercial do clube, servem de garantia ao fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) que o tricolor criou em 2024 para trocar dívida bancária cara por recursos do mercado de capitais.
O fundo compra recebíveis do clube, como patrocínios, direitos de transmissão e mensalidades de sócios, e paga os investidores com o fluxo dessas receitas. Se o patrocínio da Superbet cair, o São Paulo terá de oferecer outra garantia ao FIDC, em um momento em que o caixa já está apertado. Para manter o contrato vivo, clube e patrocinadora recorreram a uma troca de marca: na última quarta-feira (7), contra o Cruzeiro, o São Paulo entrou em campo com o nome da Superscore, plataforma de estatísticas do grupo Superbet, no lugar da casa de apostas.
Por ora, não há perdas. O informe mais recente entregue à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de agosto e portanto anterior à MP, não registra atrasos e mostra os investidores recebendo em dia. Para Roberto Bento Nejar, advogado e sócio da UNK Advogados, concentrar receita e garantia em uma única contraparte de um setor sob disputa regulatória "revela, antes de tudo, uma falha de governança na gestão de riscos". "A Medida Provisória transformou esse risco, até então subestimado, em evento concreto", afirma.
A Superbet está no fundo desde o início. Em novembro de 2024, segundo relatório da Austin Rating, 64,8% da carteira eram recebíveis da empresa. Em abril de 2025, o contrato com outra patrocinadora, a Viva Sorte, foi rescindido, e o regulamento obrigou o clube a repor os recebíveis perdidos. O São Paulo o fez inserindo parcelas futuras da Superbet "na forma de garantia", segundo relatório gerencial do fundo. O contrato com a Superbet, renovado até 2030, prevê R$ 678 milhões em valores fixos, dos quais R$ 95 milhões em 2026. "Como o contrato prevê rescisão sem multa em caso de impedimento regulatório, praticamente todo o risco recai sobre o clube", diz Nejar.
Nas cotas seniores do FIDC, investidores profissionais têm remuneração-alvo de CDI + 5% ao ano. O clube detém as cotas subordinadas, que absorvem as primeiras perdas. A gestão é da Galapagos Capital, com a Outfield Ventures como cogestora. Em agosto, o fundo tinha patrimônio de R$ 149,7 milhões. Se o clube não repuser a garantia nem pagar a dívida, a perda chega à carteira do fundo e é absorvida primeiro pelas cotas subordinadas, que pertencem ao próprio São Paulo. Em julho, os investidores receberam R$ 18,2 milhões; pelo informe de agosto, ainda têm cerca de R$ 86 milhões a receber, protegidos por R$ 63,7 milhões em cotas subordinadas do clube.
O desfecho depende do STF, onde o ministro Luiz Fux analisa pedidos para suspender a MP, e do Congresso, que tem até 120 dias para votá-la. Enquanto isso, as plataformas de apostas foram desligadas em 5 de outubro, e as autorizações serão extintas no dia 25. Os informes de setembro e outubro à CVM devem mostrar os primeiros efeitos no fundo, se houver.
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