'Descobri pelas redes sociais que ele estava morto': o duplo castigo aos condenados na Arábia Saudita, um dos países que mais aplicam a pena de morte
A Arábia Saudita está entre os países que mais aplicam a pena de morte no mundo, atrás apenas da China e do Irã, e mais de 40% dos executados são estrangeiros. A constatação aparece em relatos de famílias de cinco etíopes executados em 23 de junho no centro de detenção de Khamis Mushait, na província de Asir, no sul do país, que não foram avisadas previamente e nunca receberam os corpos, os pertences pessoais ou as certidões de óbito dos parentes.
Kibrom Kinfe Aregawi, de 25 anos, e Tsigabu Gebremariam, de 26, estavam entre os executados, condenados por contrabando de maconha. Segundo o pai de Kibrom, Kinfe Aregawi, o jovem foi detido em 2023 ao atravessar a fronteira, depois de cruzar o Mar Vermelho em uma embarcação lotada e percorrer o Iêmen a pé. Ele já havia sido preso e deportado em 2020, quando viajou sem visto válido acompanhado do pai, mas decidiu retornar por causa da guerra civil na Etiópia. "Ele nem sequer teve a oportunidade de falar conosco. Descobri pelas redes sociais que ele estava morto", disse Kinfe à BBC. O pai afirma acreditar que o filho era inocente e foi condenado injustamente.
Tsigabu deixou a casa aos 18 anos para escapar da pobreza e da guerra civil, conforme o pai, Hagos Gebremeskel. Ele passou três anos e meio na prisão e falou com a família pela última vez em fevereiro, quando disse que voltaria para casa em breve e se casaria. Ao saber da execução por meio de parentes que vivem na Arábia Saudita, a família, cristã ortodoxa, realizou um funeral simbólico e um serviço de oração na igreja local. "Quero saber por que o corpo dele não voltou para casa", diz a mãe, Letechristos Gebretsadik, que cumpriu o tradicional luto de 40 dias.
Para os cristãos ortodoxos etíopes, o enterro religioso é elemento essencial da fé: o corpo é envolto em uma mortalha cerimonial e colocado em um caixão de madeira. Sem os restos mortais, as cerimônias não puderam seguir esse rito. "A recusa em devolver um corpo não é uma mera questão administrativa. Ela estende a punição à família da pessoa executada", afirma Duaa Dhainy, pesquisadora sênior da Organização Saudita Europeia para os Direitos Humanos (ESOHR) e consultora de casos da Reprieve MENA. A relatora especial da ONU sobre liberdade de religião ou crença, Nazila Ghanea, classificou a prática de reter os corpos como "tortura e abuso".
Um relatório da Anistia Internacional publicado no ano passado aponta que 75% das pessoas executadas por crimes relacionados às drogas eram estrangeiras. Segundo estimativas da ESOHR, o total de execuções na Arábia Saudita ultrapassou 2 mil desde que o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud subiu ao trono, em 2015, com 42% de estrangeiros entre os executados. A organização calcula 356 execuções em 2025, o maior número anual já registrado. A legislação saudita permite a repatriação do corpo pela embaixada, mas, segundo Dhainy, isso nunca acontece. A BBC informa que solicitou resposta ao governo saudita por meio dos ministérios do Interior e das Relações Exteriores e da embaixada em Londres, sem retorno.
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