Copom decide taxa de juros sob pressão inflacionária e desconfiança do mercado
A primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) após as eleições ocorre em um ambiente de pressão inflacionária, tensões externas e desconfiança do mercado sobre a condução da política fiscal pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva. Até poucos dias antes do segundo turno, a expectativa majoritária era de um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic. O resultado das urnas inverteu essa probabilidade, e boa parte do mercado passou a projetar a manutenção dos juros no patamar atual, de 13,75% ao ano.
Segundo economistas ouvidos pelo setor, a mudança de cenário foi rápida. O dólar subiu de R$ 4,96, cotação da sexta-feira anterior ao segundo turno, para cerca de R$ 5,40 até esta terça-feira (3). A inflação oficial (IPCA) acumula alta de 4,58% em doze meses, acima do teto da meta de 4,5%. "A desvalorização do real ainda vai passar para os preços nos próximos meses, e as expectativas, que já estavam acima da meta, devem subir", avalia Guilherme Ghidetti, sócio e CIO da Jera Capital.
A inflação de serviços, resistente a recuos, adiciona uma barreira à decisão de afrouxar os juros. Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, observa que os serviços intensivos em trabalho já superam 7% de alta, o que pressiona por juros restritivos por mais tempo. Entre as casas de análise, ganha força a percepção de pausa nesta reunião de novembro. Gustavo Sung, da Suno Research, projeta a Selic mantida em 13,75% até o fim de 2026, recuando para 12% ao fim de 2027. Carlos Lopes, do BV, não vê espaço para corte em novembro nem em dezembro.
Uma parcela dos analistas, no entanto, ainda vê espaço para redução. Leandro Padulla, do ASA, e Rafaela Vitoria, do Inter, mantêm como cenário-base um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,5%. Padulla destaca que a perda de ritmo da atividade e a projeção de inflação no horizonte relevante sustentariam o movimento, embora a depreciação cambial tenha elevado a probabilidade de manutenção. Rafaela ressalta que a Selic a 13,5% continuaria restritiva, mas projeta a retomada dos cortes somente no fim de 2027, condicionada a medidas fiscais estruturantes.
O cenário global também pede cautela. Vitor Kayo, da Nomad, aponta que a manutenção dos juros pelo Federal Reserve entre 3,75% e 4% reduz o diferencial de taxas com o Brasil e mantém pressão sobre o real. Ele cita ainda o petróleo elevado pelas tensões no Oriente Médio e o efeito do El Niño sobre os alimentos. André Matos, da MA7 Capital, observa que as projeções do Boletim Focus para a Selic no fim de 2027 subiram de 11,75% para 12,50%, enquanto a inflação esperada saltou de 4,34% para 4,76%.
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