Em meio a incertezas, Copom pode redefinir humor dos ativos brasileiros?
O mercado financeiro aguarda a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira com a expectativa de que a decisão sobre a taxa Selic seja apenas parte do que está em jogo. Investidores apontam que o principal gatilho para os ativos brasileiros será o tom do comunicado da autoridade monetária, em um cenário de incertezas fiscais, inflação acima da meta e intensa discussão sobre as propostas do economista André Lara Resende para reduzir estruturalmente o custo da dívida pública.
A expectativa predominante é de que o Banco Central mantenha os juros em 13,75%, decisão que já estaria amplamente precificada. Para Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV, a importância da reunião está menos na decisão e mais na comunicação. Segundo ele, um comunicado firme pode ajudar a reduzir os prêmios de risco, favorecer o real e criar condições para uma recuperação da Bolsa. "O mercado não espera apenas uma decisão sobre a Selic. Espera uma demonstração de credibilidade do Banco Central", afirma.
Na mesma linha, Gabriel Pinheiro, sócio da GT Capital, avalia que o encontro do Copom passou a ser visto como a primeira grande resposta institucional ao choque provocado pela eleição. "Hoje, cada palavra do comunicado vale mais do que a decisão em si", diz. Analistas avaliam que um comunicado considerado "hawkish" — mais duro, com preocupação explícita sobre a inflação — pode ser bem recebido pelos investidores neste momento, por reduzir dúvidas sobre a condução da política monetária e contribuir para aliviar os juros de longo prazo.
O debate em torno das ideias de André Lara Resende, apoiadas por integrantes próximos ao novo governo, ganhou força durante o feriado prolongado. As propostas defendem uma redução mais acelerada dos juros como forma de aliviar o peso da dívida pública, com sugestão de queda gradual da Selic para cerca de 7,5% ao longo de 12 meses, acompanhada por mudanças na coordenação entre as políticas monetária e fiscal. O diagnóstico de que os juros brasileiros são excessivamente elevados é amplamente compartilhado entre economistas; a divergência está no caminho para reduzir esse custo. Para Gesner Oliveira, o objetivo de diminuir os juros é correto, mas depende da criação de condições macroeconômicas adequadas. "O Brasil precisa de juros menores, mas a pior maneira de conseguir isso é tentar reduzi-los sem antes enfrentar as causas que os mantêm elevados", afirma.
Entre os especialistas, o cenário considerado mais provável é o de manutenção da Selic acompanhada de um tom duro no comunicado, destacando a deterioração das expectativas de inflação, o impacto da desvalorização cambial e os riscos fiscais. Uma segunda possibilidade seria uma mensagem mais neutra e dependente dos dados econômicos, o que poderia ser interpretado como insuficiente diante do aumento recente das incertezas. Já um comunicado mais brando ou uma sinalização de retomada próxima dos cortes poderia provocar nova abertura da curva de juros e pressionar o dólar, segundo os analistas.
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