Bolsa decolou, mas está mais barata? Por que gestores ainda veem fôlego na euforia
O Ibovespa superou os 209 mil pontos na segunda-feira (5), na maior valorização diária desde 24 de março de 2020, em movimento que se seguiu ao primeiro turno das eleições. Mesmo com a correção registrada na terça, o índice segue acima da marca dos 200 mil pontos. Ainda assim, parte dos gestores de ações sustenta que a Bolsa não necessariamente ficou mais cara — e pode ter até ficado mais barata.
João Luiz Braga, sócio-fundador da Encore Asset Management, defende essa tese aparentemente contraditória. "Se brincar, no final do dia ela estava mais barata do que um dia antes", diz. O raciocínio se apoia na queda forte dos juros: juros futuros menores melhoram as projeções de receita das empresas, reduzem a despesa financeira e diminuem a taxa de desconto usada para calcular o valor das ações. Num cenário de vitória de Flávio, com menor preocupação fiscal, o gestor considera não só possível como provável que os juros caiam dos atuais 13,75% para perto de 10%. Braga lembra que várias empresas domésticas eram negociadas a quatro ou cinco vezes o lucro e poderiam chegar a oito ou dez vezes sem que isso as tornasse caras.
Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital, vê espaço para novas altas no posicionamento dos investidores que ficaram de fora. Com a renda fixa pagando acima de 13% ao ano e os títulos públicos atrelados à inflação garantindo as metas atuariais dos fundos de pensão sem risco de Bolsa, o Brasil vivia "a menor alocação em Bolsa da história". Na conta de Campos, mesmo depois do salto o Ibovespa segue abaixo da média histórica de preço sobre lucro (P/L), e os resultados das empresas tendem a melhorar com crédito mais barato. Ele pondera, porém, que o caminho não será linear.
Luciano França, gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, avalia que, com uma trajetória de dívida mais coerente, juros mais estáveis e maior previsibilidade, o Ibovespa pode se consolidar na casa dos 250 mil pontos até o fim de 2027. Sem ajustes fiscais, porém, o risco é de um "voo de galinha". Para ele, o que se viu na segunda-feira foi uma reprecificação de múltiplos provocada pela queda dos juros longos, e não uma revisão de lucros, que deve levar de 12 a 24 meses para aparecer nos balanços.
Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton Brasil, diz que a alta surpreendeu pela força e pela velocidade, já que o mercado havia subido na semana anterior antecipando um resultado favorável à oposição. O principal fundo de ações da casa subiu 10,7% no dia. Segundo o gestor, agora é preciso separar o curto prazo do horizonte mais longo: no curto prazo, o mercado já subiu bastante, e novas altas dependem dos desdobramentos da eleição, como a escolha da equipe econômica e o anúncio das medidas do futuro governo. No longo prazo, se as reformas esperadas pelo mercado forem feitas, o Ibovespa, que hoje negocia a 9,5 vezes o lucro, pode voltar ao múltiplo de cinco anos atrás, de 11,5 vezes, o que levaria o índice aos 250 mil pontos.
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