Aproximação com direita radical pode ter custado liderança a Flávio, diz analista
A aproximação do senador Flávio Bolsonaro (PL) com figuras da ala mais radical da direita na reta final da campanha presidencial pode ter comprometido sua capacidade de liderar a oposição ao governo Lula (PT). A avaliação é do cientista político Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), em entrevista ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney.
Segundo Fernandes, Flávio tinha condições de se consolidar como principal representante da direita após receber quase 60 milhões de votos, mesmo com a derrota no segundo turno. O professor afirma que o senador era visto como o integrante da família Bolsonaro com maior capacidade de negociação com partidos de centro e setores do Congresso — característica que poderia ajudá-lo a reunir o eleitorado bolsonarista e ampliar sua influência sobre grupos menos identificados com a direita ideológica.
A estratégia, no entanto, mudou durante o segundo turno, quando o senador passou a dar maior espaço a aliados como Pablo Marçal, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira. "Foi inesperado. Todo mundo tinha ali a percepção de que, dentro da família Bolsonaro, Flávio Bolsonaro era o mais moderado dos bolsonaristas, era aquele que circulava melhor no Centrão, participava mais de negociação", afirmou. Para o cientista político, o movimento dificultou a expansão eleitoral e reduziu o espaço para uma candidatura capaz de dialogar com diferentes setores da direita. Fernandes citou Tarcísio de Freitas e Cleitinho como exemplos de políticos que poderiam ter desempenhado papel mais relevante nessa articulação.
De acordo com o professor, a derrota não impedia Flávio de assumir o comando político da oposição: a votação expressiva, a força do PL no Congresso e a presença de governadores alinhados à direita ofereciam condições para que o senador ocupasse esse espaço. A saída do Brasil, porém, alterou o cenário. "Acho que o Flávio Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade de ser o líder da direita, e isso vai ser disputado, seja pelos herdeiros da família Bolsonaro, seja por outros políticos da direita", disse.
Entre os possíveis nomes na disputa estão Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro e Cleitinho. O governador de São Paulo tem interlocução com setores empresariais e partidos de centro, enquanto Michelle mantém vínculos com o eleitorado conservador e evangélico. Cleitinho ganhou projeção nacional com a disputa pelo governo de Minas Gerais. Para Fernandes, o principal obstáculo dessas lideranças será conquistar uma base eleitoral que continua fortemente identificada com Jair Bolsonaro. "Essa direita mais moderada, que circula nos ambientes políticos, que circula na Faria Lima, que circula no empresariado, ela quer o Tarcísio", afirmou. "O problema é que essa direita não tem voto. Quem tem voto é Jair Messias Bolsonaro."
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