Ação de dividendo é bote salva-vidas em cenário de juro alto? Não é bem assim
A fama de que ações com altos dividendos são um porto seguro em períodos de juros elevados não se sustenta quando a estratégia é comparada a outras abordagens. É o que aponta um estudo da XP, que analisou o comportamento de uma carteira teórica formada pelas maiores pagadoras de proventos da bolsa brasileira.
O levantamento ordenou as ações listadas pelo valor distribuído em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) nos últimos 12 meses em relação ao preço do papel. A partir daí, comparou o desempenho dos 20% de maior pagamento com o dos 20% de menor pagamento. Na simulação, a carteira das maiores pagadoras rendeu 13,4% ao ano, enquanto a das menores registrou perda de 2,5% ao ano. Já a estratégia que combina a compra das primeiras com a venda das segundas, batizada pela XP de fator Dividendos, rendeu 12,8% ao ano. Os resultados são simulados, com carteiras teóricas de pesos iguais e rebalanceamento mensal.
Segundo o relatório assinado pelo time de analistas chefiado pelo estrategista-chefe Fernando Ferreira, o prêmio do fator Dividendos se amplia quando os juros sobem, mas não porque o mercado recompensa as empresas que distribuem. Em período de juro alto, a carteira de maiores pagadoras fica praticamente estável ou cai, e a vantagem aparece porque as ações das empresas que pagam pouco recuam com mais força. A XP ressalta que esse comportamento não é exclusivo dos dividendos e aparece na maioria das estratégias analisadas, cujo ganho em ciclos de alta também depende da queda maior das ações contra as quais a estratégia aposta.
O estudo também contesta a ideia de que uma carteira de dividendos se concentra em setores defensivos e regulados, vistos como substitutos da renda fixa. Na média histórica, utilidades públicas respondem por 19% da carteira de maiores pagadoras, a maior fatia individual, enquanto o restante se distribui entre setores como tecnologia, mídia e telecomunicações, varejo, bancos e mineração. De acordo com a XP, as maiores pagadoras são até ligeiramente mais expostas a juros do que uma carteira média de ações, e cerca de 80% da reação delas às taxas é explicada pelo movimento do Ibovespa, e não pela política de distribuição.
O cálculo não inclui recompras de ações, já que, segundo os estrategistas, poucas empresas brasileiras recompram o suficiente para alterar o ranking. Ao cruzar dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a equipe identificou que, dos 573 programas de recompra anunciados desde 2016, cerca de 30% resultaram em redução líquida superior a 1% das ações em circulação. Para a XP, o tema deve voltar à pauta com a retenção de imposto na fonte sobre dividendos, em vigor desde janeiro, que dá às empresas o primeiro incentivo relevante para trocar distribuições por recompras. Como a política de distribuição se ajusta com defasagem, os estrategistas ponderam que uma eventual mudança de comportamento pode aparecer apenas a partir de 2027.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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