O que faz uma empresa familiar atravessar gerações enquanto outras ficam pelo caminho?
No Brasil, 90% das empresas têm perfil familiar, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da predominância, a continuidade ao longo das gerações é exceção: um levantamento do Banco Mundial aponta que apenas 30% dessas empresas chegam à terceira geração e, entre essas, somente metade sobrevive até a quarta.
Um dado citado em pesquisa da Mardô Family House Integration pode indicar a raiz do problema: apenas 11% das empresas familiares brasileiras contam com um plano estruturado de sucessão, contra 64% no mundo. Segundo o texto, o principal motivo dessa alta taxa de mortalidade corporativa não é, muitas vezes, a falta de mercado ou de faturamento, mas o adiamento do planejamento sucessório.
Há uma resistência comum, e até cultural, em tratar da sucessão enquanto o fundador ainda está à frente do negócio. Empresas saudáveis, lucrativas e bem posicionadas deixam de sobreviver à troca de geração porque essa transição nunca foi planejada, apenas esperada para "quando chegar a hora". O tema costuma ser encarado como prematuro ou como gesto de desconfiança entre gerações — na prática, segundo o artigo, ocorre o oposto.
O planejamento sucessório não se resume a um único instrumento, mas a uma combinação de mecanismos jurídicos que se articulam. A constituição de uma holding patrimonial ou familiar permite organizar a titularidade das cotas ou ações e antecipar a transferência de patrimônio por meio de doação com reserva de usufruto, reduzindo a exposição do processo a inventário e evitando a fragmentação do controle societário entre herdeiros. Paralelamente, o acordo de sócios disciplina regras de governança, quóruns de deliberação e critérios de saída, enquanto o protocolo familiar estabelece o pacto de valores e a política de ingresso de familiares na gestão.
A ausência de qualquer um desses instrumentos não impede a sucessão, mas transfere ao Judiciário — muitas vezes em inventário ou dissolução parcial de sociedade — decisões que poderiam ter sido pactuadas em vida pela família, com custo, tempo e desgaste significativamente maiores. É nesse cenário que sócios se desentendem, herdeiros disputam o controle sem preparo técnico para exercê-lo e negócios sólidos perdem valor ou se dissolvem. Empresas que atravessam gerações passaram por pelo menos uma troca de comando, e o fato de ainda existirem diz muito sobre as decisões tomadas nesses momentos de transição.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar