O fim das farmácias? Mercado Livre assusta, mas há motivos para queda forte do setor?
O anúncio de que o Mercado Livre passará a vender medicamentos sob prescrição no Brasil provocou uma reação negativa forte nas ações do setor farmacêutico nesta quinta-feira (24), com quedas de até 8%. A empresa informou que comercializará remédios que exigem receita, incluindo antibióticos e canetas GLP-1, por meio de sua farmácia própria, com validação da prescrição por um farmacêutico antes da liberação do pedido.
A companhia também pretende integrar redes de farmácias de terceiros ao seu marketplace, com as primeiras parcerias previstas para outubro e meta de alcançar ao menos 20 redes até o fim de 2026. O movimento veio acompanhado do lançamento do "Chega Agora", serviço de entregas em até 60 minutos disponível inicialmente em algumas regiões de São Paulo.
Para a XP, a iniciativa é positiva para o Mercado Livre, pois abre uma nova fonte de receita em uma categoria ampla e de alta frequência, ainda que os investimentos em logística, farmacêuticos e estoques possam pressionar as margens no curto prazo. Já o JPMorgan classificou o anúncio como relevante para o sentimento dos investidores, mas avalia que o impacto sobre os lucros das varejistas farmacêuticas listadas é limitado neste momento. O banco destacou que RD Saúde e Pague Menos tiveram desempenho inferior ao Ibovespa em cerca de 5% e 7%, respectivamente.
Na avaliação de Cristiano Luersen, especialista em investimentos e sócio da Wiser Investimentos, a queda foi exagerada no curto prazo, embora a ameaça seja real e possa ganhar peso no médio e longo prazo. Segundo ele, a entrada do Mercado Livre no segmento ocorreu em etapas — primeiro medicamentos sem exigência de receita, depois a expansão da operação e agora os produtos com retenção de uma via da prescrição. "É o terceiro degrau de uma escada que estava à vista de todo mundo", afirmou.
A intensidade da reação também está ligada aos medicamentos GLP-1, usados em tratamentos contra diabetes e obesidade. Luersen cita dados divulgados pela própria Pague Menos segundo os quais o consumidor desse tipo de tratamento gasta cerca de nove vezes mais que um cliente comum e visita a loja com frequência 50% maior. O JPMorgan, porém, vê fatores que reduzem o potencial de ruptura nessa categoria: grandes fabricantes mantêm programas de benefícios que estabelecem preços e descontos, e o Mercado Livre não teria a mesma liberdade para usar cupons amplos, já que descontos condicionados a cupons, cartões ou identificação do paciente estão sujeitos às regras da CMED. A XP acrescenta que escala, presença física e operações omnichannel das grandes redes seguem como vantagens competitivas, em um mercado que movimenta mais de R$ 200 bilhões e permanece fragmentado.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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