Foco na História: as grandes civilizações africanas. O trabalho missionário na África
O trabalho missionário no continente africano foi realizado basicamente pelas ordens religiosas. Os capuchinhos, por exemplo, já estavam presentes na África desde o século XVI. No século XIX, começaram a chegar outras congregações e institutos missionários, como espiritanos, OMI, jesuítas, agostinianos e os Missionários da Consolata, entre congregações masculinas e femininas.
Na Antiguidade, as comunidades cristãs floresceram de maneira intensa, especialmente no norte da África e no Egito, onde se organizaram em alguns dos atuais países da região. Foi nesse contexto que brilhou a figura de Santo Agostinho, e também alguns papas saíram dessas comunidades. No Egito, houve destaque para o patriarcado de Alexandria. A invasão dos povos germânicos nos séculos V e VI, sobretudo dos vândalos, levou à extinção de muitas dessas comunidades. Mais tarde, a partir do século VII, a expansão islâmica em direção à Península Ibérica fez com que o cristianismo se tornasse religião minoritária na região acima do Deserto do Saara, situação que se mantém até hoje.
A África subsaariana já era bem conhecida desde o século XV, com a chegada das nações colonizadoras, sobretudo Portugal. A expansão da fé cristã ficou diretamente associada à colonização, mas, por razões sociais e políticas, nunca houve uma presença mais forte da Igreja, e a região permaneceu bastante abandonada até o século XIX, quando as principais nações europeias retalharam a África em vários impérios coloniais. Nesse período começaram também as viagens de exploração científica e colonizadora que percorreram boa parte do continente.
Com as diferenças específicas de cada instituto religioso, os métodos de evangelização eram basicamente os mesmos, centrados na fundação de escolas, hospitais e orfanatos erguidos ao lado das missões católicas. No Congo, a ação missionária foi patrocinada pelo rei Leopoldo I da Bélgica, que considerava o território seu feudo pessoal e comandou um verdadeiro massacre na região, levando à extinção de mais de 10 milhões de pessoas. Na maioria das vezes, com raras exceções, os missionários estavam com as mãos amarradas ou coniventes com a situação. Na atual Tanzânia, ocorreu também a união da Igreja com o projeto colonial alemão, considerada um dos maiores prejuízos na evangelização. Na atual Ruanda, os missionários tentaram trabalhar a conversão dos chefes, na crença de que todo o povo de uma aldeia ou tribo os seguiria, o que nem sempre acontecia.
Independentemente dos muitos erros, merecem destaque iniciativas que hoje se colocam no campo da inculturação, como as tentativas de adaptação da música e da liturgia aos ritos locais. A ação dos papas, sobretudo com a publicação de documentos importantes, dirigiu-se ao incentivo à formação de um clero nativo, que aos poucos poderia substituir o clero estrangeiro — realidade ainda não alcançada em diversos países. Destaca-se ainda a ação educacional da Igreja nas escolas, que contribuiu para a redução dos altos índices de analfabetismo funcional, e a implantação de um sistema de catecumenato para a formação da fé dos recém-convertidos.
O processo de evangelização nem sempre foi fácil, devido à multiplicidade étnica e cultural, às guerras declaradas e à oposição entre tribos e povos rivais de uma mesma região. Os muitos casos de racismo e a consideração dos negros como sub-raça também prejudicaram muito a evangelização, além de sua identificação com a colonização. Esse fato levou à expulsão de muitos missionários, como a dos portugueses quando se iniciou o processo de luta pela independência. Como em grande parte a evangelização era patrocinada por governos europeus, crises enfrentadas em países europeus contribuíam para o esvaziamento ou a criação de inúmeras dificuldades na missão africana.
Apesar de todas as dificuldades, o trabalho missionário avançou e a Igreja na África foi se consolidando, sobretudo nos países abaixo do Saara. Hoje, o cristianismo africano é um dos que apresentam a maior taxa de crescimento do mundo. A Igreja Católica no continente vive uma fase de forte expansão demográfica, tendo ultrapassado recentemente a Europa em número total de fiéis. Mais de 288 milhões de católicos vivem na África, o que representa cerca de 20,3% do total mundial. A República Democrática do Congo e a Nigéria lideram em quantidade de fiéis, e o ritmo de crescimento de vocações e batismos contrasta com a queda e a secularização registradas na Europa.
A atuação da Igreja vai além da fé vivida nos templos, com apoio a áreas vulneráveis, como campos de refugiados, e no combate à fome e à pobreza. A Igreja mantém uma vasta rede de escolas, hospitais, clínicas e orfanatos que sustentam comunidades inteiras onde o Estado é ausente. Por outro lado, convive com o avanço do pentecostalismo evangélico e de outras denominações religiosas em várias regiões, e enfrenta desafios locais severos ligados a guerras civis, instabilidade política e perseguições em algumas áreas específicas. Como em outros continentes, apresenta um perfil interno plural, oscilando entre posturas mais conservadoras, sobretudo em questões morais, e correntes focadas no diálogo inter-religioso.
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