De Xangai a Roma: há 100 anos, a histórica viagem dos primeiros bispos chineses
Xangai, 10 de setembro de 1926. O apito das sirenes do porto anunciava a partida do navio que levava seis vigários apostólicos chineses rumo à Europa. Acompanhava-os o arcebispo Celso Costantini, primeiro Delegado Apostólico na China, que dois anos antes havia preparado e conduzido, em nome do Papa Pio XI, o "Primum Concilium Sinense", o Concílio da Igreja na China, celebrado em Xangai em 1924.
Os seis religiosos viajavam para receber a ordenação episcopal das mãos do próprio Papa. A cerimônia de consagração, realizada em 28 de outubro de 1926 na Basílica de São Pedro, despertou atenção e interesse em todo o mundo. Antes disso, a comitiva fez escala em Hong Kong, Manila, Singapura, Malaca e Colombo, sempre recebida por autoridades eclesiásticas, religiosos e fiéis. Em Manila, foram dispensados das formalidades de controle e alfândega; em Singapura, os fiéis chegaram a arrecadar ofertas em favor dos viajantes.
O navio cruzou o Mar Vermelho em outubro, entrou no Canal de Suez e atracou em Nápoles no dia 16. No trajeto terrestre até Roma, o governo italiano concedeu isenção da inspeção de bagagens e reservou gratuitamente três compartimentos de primeira classe, com funcionários encarregados de acompanhar o grupo. Na chegada à capital italiana, os viajantes foram recebidos na plataforma por representantes da Sagrada Congregação de Propaganda Fide, pelo Cardeal Vigário de Roma e por estudantes chineses.
Após a consagração, os bispos partiram para uma viagem por quatro países europeus, recebidos com entusiasmo. Em Lovaina, na Bélgica, a multidão os saudou aos gritos de "Vive la Chine!". Em nova audiência, em 10 de novembro, Pio XI manifestou o desejo de que voltassem a Roma mais vezes e observou que, com a melhoria dos transportes, seria possível viajar de avião entre a China e Roma. Segundo o relato, o Papa também teria dito, ao saber que os bispos ainda não tinham o traje romano, que "o traje chinês também está bem".
O relato detalhado da viagem foi elaborado com base nas memórias do cardeal Celso Costantini, "Con i missionari in Cina, 1922-1933", e na obra "Ricordi di due anni", de Venantius Zhao Huaixin, quinto irmão do bispo Filippo Zhao Huaiyi, que acompanhou o grupo como secretário. A viagem, segundo o material, despertou sentimento de dignidade e orgulho não apenas na comunidade católica chinesa, mas também na própria nação, que quatorze anos antes havia se libertado de uma condição semifeudal e semicolonial.
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