Como o guarani, idioma nativo do Paraguai, se tornou a nova língua moderninha pelo mundo
Guarani, idioma nativo do Paraguai, vira febre mundial e ganha espaço em apps, escolas e na música
O guarani, idioma nativo dos indígenas do Paraguai e de outros países sul-americanos, está se popularizando como a nova língua “moderninha” pelo mundo. Em agosto, a revista inglesa The Economist publicou uma reportagem descrevendo o guarani como “o idioma hipster da América do Sul mais descolado que o espanhol”. A publicação destacou que jovens aderem à tendência, com influenciadores lotando o TikTok e o Instagram com tutoriais de vocabulário, além de artistas divulgando rap e jazz em yopará — mistura do guarani com o espanhol — no Spotify.
Além das redes sociais, o idioma é ensinado em aplicativos como o Duolingo e começa a ser difundido na educação presencial de outros países. Em 2023, a Associação Canadense de Professores de Segunda Língua (CASLT) criou um material específico sobre guarani para professores de ensino fundamental, médio e superior no Canadá, com textos e vídeos para ensinar a língua no país norte-americano.
Um dos motivos para a badalação recente foi a surpreendente campanha da seleção do Paraguai na Copa do Mundo de 2026, disputada entre junho e julho nos Estados Unidos, no Canadá e no México, quando a Albirroja eliminou a tetracampeã mundial Alemanha na segunda fase. Reportagens da imprensa internacional destacaram a estratégia dos jogadores paraguaios de utilizar o guarani dentro de campo para “despistar” atletas e técnicos de outros países que também falam espanhol. “O guarani é uma parte intrínseca da nossa identidade. Falar um segundo idioma é uma vantagem, pois os jogadores conseguem se comunicar de uma forma que ninguém mais entende”, disse o torcedor paraguaio Nati Martinez, em entrevista ao The Athletic, site de esportes do grupo The New York Times.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, também aderiu à onda: em evento no departamento de Misiones em outubro de 2025, ele prometeu que se tornaria fluente em guarani. “Eu adoraria poder falar com fluência o doce idioma guarani. Vou tentar falar o guarani. Não posso prometer que vou falar como outros políticos, que falam muito bem. Sabem o que vou fazer? Eu lhes prometo, lhes garanto que vou colocar guarani nos seus bolsos”, afirmou, em brincadeira com o fato de guarani também ser o nome da moeda paraguaia.
Dados oficiais divulgados no Dia do Idioma Guarani, comemorado em 25 de agosto, mostram que 27,9% da população paraguaia a partir dos cinco anos fala apenas guarani em casa e 38,7% usa tanto o guarani quanto o espanhol no dia a dia. No Brasil, o paraguaio Julio Alfonzo, de 38 anos e radicado no país desde 2008, mantém canais nas redes sociais para ensinar o idioma. Ele contou que criou o canal no YouTube em 2020 e, após um período de baixa procura, viu o interesse crescer: hoje tem 56 mil seguidores no YouTube e viu o número de seguidores no Instagram saltar de 600 para 8 mil em uma semana. “Montei uma turma e já tenho mais de 60 alunos em um grupo de guarani básico”, disse. Alfonzo explica que o guarani tem estrutura muito diferente do português e do espanhol, por ser uma língua aglutinante, que junta termos para criar novas palavras. “O brasileiro costuma aprender mais rápido do que quem fala espanhol”, afirmou, lamentando que muitas palavras tenham caído em desuso ao longo do tempo e defendendo o fomento ao idioma para que ele não caia no esquecimento.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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