BBC entra na Faixa de Gaza: campos infestados de ratos e feridas que não cicatrizam
Uma equipe da BBC teve acesso ao Hospital Nasser, na Faixa de Gaza, onde acompanhou o tratamento de Raseel, uma menina de 6 anos com ferimentos graves. Ela sofreu uma fratura na perna direita, tem feridas infectadas nas pernas e na mão e carrega um estilhaço alojado no cérebro. A menina sente dores constantes e precisa de um enxerto de pele, mas o procedimento depende de que as feridas comecem a cicatrizar — o que não ocorre, porque as infecções não respondem aos antibióticos disponíveis no território.
Sem alternativa, os médicos precisam reabrir e limpar as feridas repetidamente. O procedimento já foi feito mais de 20 vezes. Segundo Awni al-Jaafarawi, médico da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) que acompanha o caso, as feridas da menina estão infectadas por bactérias resistentes a vários medicamentos. "A menina terá que permanecer internada por mais tempo e, por isso, contrairá outras infecções, o que dificultará ainda mais sua recuperação", afirmou. Raseel dormia com a família em uma tenda no campo de al-Mawasi, perto de Khan Younis, quando um ataque aéreo de um helicóptero israelense atingiu o local em 30 de julho, segundo testemunhas. A irmã dela, de 9 anos, e uma prima de 20 morreram. As Forças de Defesa de Israel afirmam não ter registros de um ataque naquele momento ou naquele local.
O caso de Raseel não é isolado. De acordo com al-Jaafarawi, os hospitais de Gaza registram altas taxas de infecções resistentes a antibióticos, e muitos pacientes precisam ser mantidos em isolamento. Um estudo realizado ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025, analisou quase 80 mil amostras bacterianas coletadas em 11 hospitais — a maior análise sobre resistência aos antimicrobianos já feita em Gaza. A pesquisa foi conduzida por cientistas de Gaza com apoio da Fleming Initiative, do Imperial College London, e da Universidade Americana de Beirute. O estudo ainda não passou por revisão por pares, e os resultados são preliminares.
Os autores apontam que a destruição de sistemas de água e saneamento cria condições propícias para a transmissão de infecções. Segundo a ONU, Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de abastecimento de água e saneamento de Gaza. Um relatório da ONU divulgado em julho indica que mais de 80% das famílias não têm acesso seguro à água e que até 70% não conseguem obter os seis litros diários por pessoa considerados o mínimo indispensável. O órgão israelense responsável pela administração das fronteiras de Gaza contesta os dados e afirma que o volume de água fornecido ao território supera o limite mínimo estabelecido pela ONU para situações de emergência humanitária.
Para os feridos, uma das consequências é o aumento das amputações quando as infecções atingem os ossos. "Nos próximos anos, veremos o número de amputações aumentar diariamente, mesmo que a guerra termine", diz al-Jaafarawi. Ele afirma que continua atendendo, todas as semanas, pessoas feridas em ataques israelenses, apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos e acertado entre Israel e Hamas em outubro de 2025. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, 1.421 palestinos morreram desde o início do cessar-fogo. As FDI contestam os números e afirmaram à BBC que "lamentam qualquer dano causado a civis e trabalham para reduzi-lo ao máximo possível".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Palavras-Chave
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar