André Mendonça: como um servidor discreto virou o ministro que pode vencer Moraes
André Mendonça, hoje com 53 anos, construiu uma trajetória que começou longe dos holofotes do poder. Filho de um bancário do extinto Banespa e de uma dona de casa, nasceu em Santos e passou por cidades como São Vicente, Miracatu, Itanhaém, Pederneiras e São Paulo antes de chegar a Bauru, no interior paulista. Ainda adolescente, decidiu que queria ser pastor. “Eu não queria nem fazer a faculdade de direito, queria ir para o seminário”, costuma contar. O pai pediu que concluísse os estudos primeiro, e Mendonça se formou em Direito pela Instituição Toledo de Ensino, em 1993.
Após a faculdade, tentou novamente seguir o caminho religioso, mas foi convencido pela mãe a conquistar independência financeira antes. Começou a trabalhar em um escritório montado num porão, em Bauru, prestou concurso para a Petrobras e depois para a Advocacia-Geral da União. Aprovado na AGU, pediu lotação em Londrina (PR) para poder estudar na Faculdade Teológica Sul Americana. Na capital paranaense, foi convidado em 2005 para uma missão de dois meses na Corregedoria-Geral do órgão, em Brasília. O trabalho rendeu frutos: no ano seguinte, mudou-se para a capital federal com a mulher, Janey, e os dois filhos.
Efetivado como subcorregedor, destacou-se pelo perfil técnico e chamou a atenção de Dias Toffoli, então advogado-geral da União, que em 2008 o convidou para dirigir o recém-criado Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa. À frente da área, comandou a restituição de R$ 169 milhões desviados das obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, trabalho que lhe rendeu, em 2011, o Prêmio Innovare.
A aproximação com Jair Bolsonaro ocorreu na transição de governo, quando Jorge Oliveira apresentou seu currículo ao presidente eleito. Em novembro de 2018, Bolsonaro o anunciou para chefiar a AGU e o apelidou de “Mendonção”. Em 2020, Mendonça substituiu Sergio Moro no Ministério da Justiça, cargo que ocupou até março de 2021, quando voltou à AGU. Em julho daquele ano, foi indicado por Bolsonaro à vaga de Marco Aurélio Mello no STF, mas enfrentou resistência no Senado e esperou quase cinco meses pela sabatina. Ouvido pela CCJ em 1º de dezembro, respondeu a perguntas por mais de oito horas, defendeu o Estado laico e teve o nome aprovado por 18 votos a 9 na comissão e por 47 a 32 no plenário. Tomou posse ainda em dezembro de 2021.
Desde então, ficou conhecido pela participação em julgamentos sobre liberdade de expressão, direitos individuais e os limites de atuação do próprio Supremo, incluindo os primeiros embates com Alexandre de Moraes. Sua trajetória também é marcada por controvérsias: o Instituto Iter, criado por ele em 2023 e administrado por sua mulher, fechou dezenas de contratos com órgãos públicos sem licitação, num total de R$ 10,7 milhões, segundo levantamento do jornal Folha de S.Paulo. No início deste mês, em meio aos questionamentos, Mendonça e Janey deixaram a entidade e doaram suas cotas. O instituto também aparece no caso do Banco Master: em março de 2025, Daniel Vorcaro esteve em sua sede, em São Paulo, para uma reunião com o ministro.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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