Vale, siderúrgicas, papel e celulose: por que não se animaram com rali?
O forte rali dos ativos brasileiros após o resultado do primeiro turno das eleições beneficiou principalmente empresas ligadas ao mercado doméstico, mas deixou para trás alguns dos maiores exportadores da Bolsa. Segundo análise do Bradesco BBI, a valorização do real e a expectativa de um ambiente mais favorável para a economia local podem representar um desafio relevante para setores como mineração, siderurgia e papel e celulose.
O principal fator apontado pelos analistas é a apreciação do real. Quando o fluxo de recursos estrangeiros aumenta e os ativos brasileiros sobem, a moeda brasileira tende a se fortalecer frente ao dólar. Para empresas que recebem grande parte de suas receitas na moeda americana, isso significa menor conversão de receitas para reais e, consequentemente, pressão sobre lucros e margens. Na avaliação do BTG Pactual, metais, mineração e papel e celulose historicamente costumam ficar atrás em momentos de forte "risk-on" no Brasil justamente por essa razão.
O setor de papel e celulose aparece como o caso mais evidente. O BTG classificou o segmento como o "perdedor relativo natural" em um ambiente de real mais forte, uma vez que as principais companhias do setor possuem grande exposição às exportações e pouca capacidade de capturar os benefícios de uma economia doméstica mais aquecida. A Suzano é apontada como a empresa mais vulnerável ao câmbio: cerca de 81% da receita consolidada está ligada ao mercado externo. O BBI estima que cada variação de R$ 0,10 na taxa de câmbio gera impacto de aproximadamente 3% no EBITDA anual da companhia e afeta em cerca de 0,7 ponto percentual o rendimento recorrente de fluxo de caixa livre. A Klabin também enfrenta ventos contrários, embora em intensidade menor, já que o mercado doméstico responde por cerca de metade de seus resultados.
No setor de mineração, a Vale enfrenta lógica semelhante. O BTG destaca que a empresa possui exposição limitada à demanda doméstica e continua fundamentalmente uma exportadora dolarizada. Pelas estimativas do banco, uma valorização de 10% do real reduziria o EBITDA da mineradora entre 5% e 6%. Ainda assim, como a Vale é uma das maiores posições dos índices brasileiros e uma das principais portas de entrada para investidores estrangeiros, a ação pode se beneficiar inicialmente do ingresso de capital externo — um apoio predominantemente financeiro, e não operacional.
Nas siderúrgicas, a situação também é mais complexa do que sugere a percepção do mercado. Embora muitas vezes sejam classificadas como teses domésticas, as principais empresas do setor possuem operações internacionais relevantes ou elevada exposição ao minério de ferro. A Gerdau tem cerca de 74% do EBITDA proveniente da América do Norte, enquanto o Brasil responde por aproximadamente 20%. Já a CSN tornou-se uma tese cada vez mais ligada ao minério de ferro e à estrutura de capital do que propriamente ao mercado doméstico de aço. Além disso, a valorização do real reduz a paridade de importação do aço em moeda local, criando obstáculo adicional para reajustes de preços no mercado brasileiro. No conjunto, a conclusão dos analistas é que mineração, siderurgia e, principalmente, papel e celulose tendem a ficar atrás dos setores domésticos caso o rali seja acompanhado por uma valorização persistente do real.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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