Se mudamos o mundo, por que na escola a sala de aula continua a mesma?
Escritórios, formas de trabalhar, reuniões e até a busca por informação mudaram profundamente nas últimas décadas. Nas escolas, porém, muitas salas de aula ainda preservam a mesma estrutura: carteiras voltadas para a frente, um professor conduzindo a explicação e um grupo de alunos recebendo o mesmo conteúdo, ao mesmo tempo e da mesma maneira. A constatação é da pedagoga e psicopedagoga Cristiane Cristo, diretora pedagógica da Start Anglo Bilingual School Recreio, em artigo publicado no caderno de Opinião da Gazeta do Povo.
Segundo a autora, a escola que ensinou os pais se parece, em muitos aspectos, com a que ensinou a geração atual e mantém características daquela oferecida aos filhos. No intervalo entre uma geração e outra, porém, as crianças mudaram profundamente, assim como o mundo ao redor delas. Hoje, crianças e adolescentes crescem em contato com uma quantidade de informações e estímulos que não existia antes, transitando entre telas, vídeos, conversas e ferramentas digitais desde cedo. Mais recentemente, a inteligência artificial passou a permitir não apenas localizar uma informação, mas receber uma explicação, organizar um conteúdo e interagir com ele de diversas formas.
Para Cristiane, a escola não precisa competir com essa velocidade nem transformar a aprendizagem em entretenimento permanente. Parte do trabalho educacional está justamente em ajudar os alunos a desenvolver atenção, escuta, persistência e capacidade de se aprofundar em algo — mas isso é feito com estudantes que vivem em um ambiente muito diferente daquele em que os adultos cresceram. A mudança, observa, já começa a aparecer na arquitetura escolar: durante muito tempo a sala de aula foi concebida como espaço fechado, e hoje existem experiências em outros países, inclusive no Canadá, com ambientes mais flexíveis, espaços compartilhados, diferentes configurações de mobiliário e uso de vidro para ampliar a integração visual entre as áreas de aprendizagem.
A autora ressalta que o vidro, por si só, não transforma a educação. O que importa nesse tipo de experiência é a concepção de escola por trás dela: em um ambiente mais aberto, o aluno percebe o movimento externo, mas aprende gradualmente a direcionar a atenção para o que está fazendo, desenvolvendo recursos para lidar com estímulos ao redor — afinal, o mundo em que vai estudar, trabalhar e viver não será livre de distrações.
O artigo também aborda a diversidade da aprendizagem. Durante muito tempo, a escola foi organizada a partir da ideia de que alunos da mesma idade poderiam avançar juntos, no mesmo ritmo. A experiência cotidiana, porém, mostra que há crianças que compreendem rapidamente uma explicação oral, enquanto outras precisam visualizar ou experimentar; algumas organizam o pensamento pela escrita, outras precisam conversar sobre o assunto. Reconhecer essas individualidades, segundo a autora, não significa imaginar uma escola diferente para cada aluno. A escola é, por natureza, um espaço coletivo, e aprender a conviver com pessoas de ritmos, habilidades, opiniões e dificuldades diferentes também faz parte da formação. O desafio está em construir esse coletivo sem tornar o aluno invisível dentro dele.
Para Cristiane, quando se fala em inovação na educação, não se deveria começar necessariamente pela tecnologia. Uma escola pode ter tablets, plataformas digitais, laboratórios e inteligência artificial e continuar reproduzindo a mesma lógica de décadas atrás. A transformação acontece quando essas ferramentas vêm acompanhadas de uma revisão sobre a maneira como são organizados o tempo, os espaços, as relações e o próprio processo de aprendizagem. Ela afirma desconfiar tanto das soluções milagrosas quanto da ideia de que tudo precisa ser reinventado: o critério não deveria ser o que é antigo ou moderno, mas o que faz sentido para o aluno que se tem diante. E conclui que não se pode cobrar do professor uma educação preparada para o futuro enquanto se mantém ao redor dele uma escola estruturada para o passado.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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