Rodrigo Sgavioli condiciona queda dos juros ao ajuste das contas públicas
O economista Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP Investimentos, defende que o Brasil precisa de um choque de credibilidade fiscal para conseguir reduzir a taxa Selic de forma consistente. Em entrevista concedida em Curitiba em outubro de 2026, ele afirma que o atual modelo de crescimento baseado apenas em estímulos de demanda se esgotou, gerando inflação e travando o desenvolvimento do país.
Na avaliação de Sgavioli, a manutenção da Selic em patamares elevados reflete uma dinâmica em que o governo mantém "um pé no acelerador fiscal e outro no freio monetário". O acelerador seria o modelo de crescimento baseado em estímulo público e crédito; o freio, os juros altos que o Banco Central é obrigado a manter para controlar a inflação gerada por esse mesmo estímulo. Para que os juros caiam de verdade, segundo ele, é necessário atacar as contas públicas, fazendo com que as despesas cresçam em velocidade compatível com a arrecadação e garantindo a sustentabilidade da dívida.
O economista também explica o conceito de prêmio de risco: um valor extra exigido pelos investidores para aplicar em ativos brasileiros diante de incertezas políticas e fiscais. Quanto maior a desconfiança sobre a economia, maior esse prêmio, o que afeta diretamente o juro futuro e o desempenho da bolsa. Segundo ele, a piora na governança do país nos últimos tempos embutiu riscos pesados e levou investidores locais ao CDI. Uma reforma fiscal séria, porém, poderia destravar esse prêmio e criar oportunidades de retorno para quem aceitar o risco agora.
Com uma melhora no cenário fiscal, Sgavioli aponta setores estratégicos que podem deslanchar. Entre eles estão os minerais críticos, como as terras raras — o Brasil tem a segunda maior reserva mundial —, e a tecnologia, com a Embraer como exemplo. Outra aposta são os data centers: o país reúne espaço, água e energia limpa, condições essenciais para se tornar um dos três maiores destinos globais desse investimento, desde que resolva entraves regulatórios e garanta estabilidade nas regras de negócio.
Sobre o papel do próximo presidente, o economista afirma que o mandatário terá a missão de promover um choque de credibilidade nos primeiros 100 dias de governo para ancorar as expectativas do mercado. Isso envolve calibrar o arcabouço fiscal e demonstrar compromisso real com produtividade e controle de gastos, especialmente em áreas como previdência e benefícios assistenciais. Sgavioli ressalta que o desafio é político, já que o Executivo divide hoje muito poder com o Judiciário e o Legislativo. Se houver governabilidade e clareza, o ciclo vicioso de juros altos pode se transformar em um ciclo virtuoso.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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