Quando o conhecimento é abundante, o que a educação precisa ensinar?
O acesso ao conhecimento deixou de ser o principal obstáculo da educação. Em artigo publicado na Gazeta do Povo, Renato Cagno, diretor de produtos, pricing e ofertas do CNA+, argumenta que as melhores aulas de física do mundo estão disponíveis gratuitamente na internet, tutores de inteligência artificial explicam cálculos, corrigem redações e conversam em inglês a qualquer hora, com paciência infinita e custo próximo de zero. Todo o conhecimento do mundo cabe no bolso de qualquer brasileiro.
Ainda assim, esse acervo não se traduz automaticamente em aprendizado. Segundo o texto, apenas cerca de 5% dos brasileiros declaram ter algum conhecimento de inglês, conforme estudo do British Council. Os cursos online abertos, que prometiam democratizar o ensino, historicamente apresentam taxas de conclusão muito baixas: 12,6% em média, segundo o estudo Massive Open Online Course Completion Rates Revisited: Assessment, Length and Attrition, de Katy Jordan. Para o autor, a educação deixou de ser um desafio de conteúdo e passou a ser um desafio de engajamento.
Cagno ressalva que "engajamento" virou a palavra da economia da atenção. Redes sociais e aplicativos com sequências de dias e medalhas engajam, mas o engajamento que prende não é o mesmo que transforma. O primeiro busca aumentar o tempo de tela; o segundo amplia o que a pessoa é capaz de fazer. O primeiro elimina o atrito; o segundo convive com ele, porque aprender de verdade é difícil. O que falta, segundo o autor, não é estímulo, mas disposição de persistir no esforço — construída com a sensação de progresso, o pertencimento a um grupo que puxa para frente e a autoria do próprio caminho.
Na avaliação do autor, a tecnologia não reduz o valor do repertório humano, e sim o multiplica. Em um mundo em que as máquinas farão boa parte do trabalho, o papel humano se aproxima ao de um maestro: o único no palco que não produz som, mas dá sentido à música. Passa a valer quem sabe fazer a pergunta certa, enxergar o todo, escolher entre caminhos e responder pela escolha. Julgamento, pensamento sistêmico e ambição, defende, não se aprendem ouvindo ou decorando respostas, mas fazendo, resolvendo problemas reais, errando cedo e tendo ao lado alguém que acredita.
Nesse cenário, o professor deixa de ser fonte de conteúdo e passa a sustentar o compromisso, conhecendo o aluno pelo nome e percebendo quando ele desanima. A turma se converte em comunidade, e o aluno, em autor. O autor cita o Learning Compass 2030, da OCDE, que coloca agência, co-agência, conhecimento, habilidades, atitudes e valores no centro da educação do futuro. Sua conclusão é que, na era da IA, educar será menos sobre ensinar respostas e mais sobre formar pessoas capazes de fazer perguntas, assumir escolhas e dar sentido ao que sabem.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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