Por que líderes estão prejudicando o sono das equipes sem perceber
Um neurocientista especializado em sono, que há uma década orienta equipes de liderança sobre o tema, analisou em artigo o que realmente afeta o descanso dentro das organizações e como comportamentos de gestores podem prejudicar o sono dos funcionários sem que eles percebam. A base é uma nova pesquisa do próprio autor e sua experiência na área.
Estudos conduzidos pelo professor de comportamento organizacional Christopher Barnes e colegas mostram que, quanto mais os gestores tratam o sono como algo a ser sacrificado pelo trabalho — vangloriando-se de dormir pouco, enviando mensagens em horários em que a maioria das pessoas está dormindo ou recompensando quem responde e-mails de madrugada —, pior seus funcionários dormem. O impacto não fica restrito ao quarto: quem dormia pior sob essas lideranças tinha mais probabilidade de adotar comportamentos antiéticos no trabalho no dia seguinte. Uma evidência de que mudar expectativas ajuda a recuperar o sono vem do meio militar. Em um estudo randomizado com 39 pelotões do Exército dos Estados Unidos, equipes de liderança receberam apenas uma hora de treinamento sobre "liderança do sono". Um mês depois, os subordinados tinham mais que o dobro de chances de dormir mais de sete horas por noite em comparação com soldados cujos líderes não receberam o treinamento.
Segundo a pesquisa do autor, duas condições explicam esse efeito: o que é permitido e o que é valorizado. Entre os líderes que afirmaram que suas organizações não permitiam priorizar uma quantidade adequada de sono, 51% disseram dormir menos do que precisavam em quatro ou mais noites por semana; entre os que responderam que sim, o percentual foi de 35%. A diferença está menos nas políticas formais e mais nos comportamentos da liderança — se uma reunião às 7h pode ser negociada, se um e-mail noturno exige resposta antes da manhã seguinte ou se pegar um voo de madrugada e apresentar às 9h é considerado normal.
Já no que é valorizado, seis em cada dez líderes, em diferentes setores e tamanhos de empresas, afirmam que dormir pouco é visto em suas organizações como sinal de comprometimento, uma espécie de medalha de honra. Nessas empresas, 94% dos líderes disseram ter escondido o cansaço pelo menos uma vez no último mês, contra 57% nos demais ambientes. Curiosamente, esses líderes não dormem menos do que os outros: em vez de produzir o sacrifício do sono, a cultura produz a performance do sacrifício. A valorização está ligada ao esforço aparente, enquanto o que se esconde é o preço pago — a lentidão mental, a irritação, a dificuldade de concentração.
Para o autor, permitir e valorizar são aspectos diferentes da cultura organizacional e não se resolvem um pelo outro. Mudar apenas o primeiro produz líderes mais descansados que continuarão escondendo o cansaço; mudar apenas o segundo produz líderes honestos que continuarão dormindo pouco. Ele recomenda uma "avaliação de recuperação" em três etapas: avaliar a si mesmo com perguntas sobre noites mal dormidas e sobre a cultura que estabelece; observar o ambiente, atentando a sinais de privação de sono no pensamento, no humor e no corpo, sem tratá-los como diagnóstico; e ouvir a equipe de forma anônima sobre descanso, cansaço escondido e percepção de que dormir pouco é sinal de comprometimento.
Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · InfoMoney e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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