Por que a Bíblia evangélica é diferente da católica
A Bíblia usada por católicos e por protestantes — ou evangélicos, termo mais comum no Brasil para denominações historicamente mais recentes — não é exatamente o mesmo conjunto de livros sagrados. As diferenças não se resumem a variações de tradução: elas têm raízes históricas e estão ligadas ao próprio cisma do cristianismo no século 16.
De acordo com o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, protestantes e católicos não divergem quanto ao Novo Testamento, mas quanto ao Antigo Testamento — a parte da Bíblia que precede o nascimento de Jesus e é praticamente igual às escrituras judaicas. Para os católicos, esse segmento reúne 46 livros. Os protestantes excluem Tobias, Judite, os dois volumes de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (também chamado de Sirácida) e Baruc.
A raiz da discrepância está na Septuaginta, tradução das escrituras judaicas para o grego corrente feita por escribas em Alexandria por volta do século 3º antes da Era Comum. O nome, "versão dos setenta", vem de uma lenda segundo a qual os tradutores teriam produzido versões idênticas do texto após 72 dias confinados em salas separadas — narrativa relatada pelo historiador judaico-romano Flávio Josefo, mas tida como fantasiosa. Os primeiros cristãos recorreram a esse material grego, e a Igreja Católica reconheceu esses livros como parte de seu cânone. Dessa fonte grega vêm também dois capítulos e um trecho a mais no livro de Daniel e acréscimos em Ester na versão católica.
Com a Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 1517, os dissidentes passaram a considerar fonte inquestionável do Antigo Testamento os textos canonizados pelo judaísmo — sem os sete livros que chamam de apócrifos e que os católicos designam como deuterocanônicos. Esses livros foram desconsiderados pelo cânone judaico no concílio de Jamnia, na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum, o que explica sua presença no conjunto traduzido em Alexandria.
O frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo e psicanalista, afirma que não existem duas bíblias completamente diferentes e que o Novo Testamento é o mesmo. Segundo ele, o cânone católico "não apareceu pronto" e foi se formando ao longo dos primeiros séculos a partir das primeiras comunidades cristãs. "Os grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições. Nenhuma das versões da bíblia pode ser desprezada", diz Solfa. O evangelista e palestrante Adimir Telles, membro da Igreja Assembleia de Deus, observa que a discussão sobre a autoridade da Bíblia diminuiu ao longo do tempo e que ambos os grupos entenderam que a verdadeira mensagem é amar o próximo.
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