Papa na Unesco: que as novas tecnologias não sejam usadas para dominar e colonizar
O papa Leão XIV discursou na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Paris, e colocou a dignidade humana no centro de sua fala. O Pontífice foi acolhido pelo diretor-geral da instituição, o egípcio Khaled Ahmed El-Enany Ali Ezz, e pelo observador permanente da Santa Sé junto à UNESCO, dom Roberto Campisi.
O discurso partiu da carta constitucional da própria UNESCO, criada em 1946. Após as atrocidades e a enorme perda de vidas humanas causadas pelos conflitos mundiais da primeira metade do século XX, os Estados-membros da ONU escreveram no preâmbulo que, uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz. A Santa Sé mantém presença na instituição há quase 75 anos, por meio de uma Missão Permanente de Observação.
No campo da educação, Leão XIV recordou a contribuição plurissecular da Igreja Católica com a abertura de escolas e universidades, obras que, segundo ele, são perpassadas por uma questão fundamental que interpela ainda hoje: o que significa ser humanos? Mesmo no século XXI, disse o Papa, não se pode dar por garantido que se sabe quem é a pessoa humana ou o que significa viver como ser humano. Ele lembrou que a pessoa é alguém concebido e que nasce, que todos são irmãos enquanto filhos e que todos necessitam de cuidados e afeto — esquecer isso significa tratar a vida como mercadoria.
Ao tratar da paz, o Pontífice afirmou que ela não pode ser construída apenas com tratados, mas é verdadeira quando brota da virtude da justiça, mais do que de um mero contrato. Ele alertou que as novas tecnologias podem se tornar um novo instrumento de domínio e injustiça. Segundo o Papa, tornou-se cada vez mais evidente um paradoxo: enquanto a inteligência é atribuída aos sistemas computacionais, há dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana, cuja vida é avaliada com base no critério da eficiência e, quando considerada já não produtiva, é rejeitada e descartada.
Leão XIV descreveu o cenário atual como situado entre a Torre de Babel e Pentecostes. Na primeira imagem bíblica, constata-se uma globalização sem fraternidade, marcada por um ávido colonialismo financeiro e por imposições ideológicas, em que a hiperconexão promove novas formas de isolamento, de miséria material e espiritual e de abandono. Ele observou que a comunicação se tornou muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira, e que a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria. Sem uma deontologia compartilhada, alertou, corre-se o risco de multiplicar informações falsas, problema acentuado pela inteligência artificial, com consequências inclusive morais.
O Pontífice exortou a comunidade internacional a dedicar especial atenção à proteção das crianças e dos jovens. Como contraponto a Babel, ofereceu a imagem da praça de Pentecostes, onde a mensagem de paz é acolhida por todos como boa nova. Reiterou a confiança da Santa Sé não só na UNESCO, mas em todas as instituições internacionais, e afirmou que não se trata de pregar um otimismo ingênuo que ignore as dificuldades, mas de perseverar na esperança de que o bem é sempre possível. Ao final, disse que não caminhamos para o nada e fez votos de que o encontro reforce a consciência de pertencer a uma única humanidade.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar