O romance que previu sociedade distópica em que eleitores não escolhem nenhum candidato
Em uma cidade portuguesa não identificada, cerca de 70% dos eleitores decidem votar em branco. Diante do resultado, as autoridades convocam um novo pleito para o domingo seguinte — e a resposta é ainda mais desconcertante: 83% das cédulas são inválidas. Esse é o ponto de partida de Ensaio sobre a Lucidez, romance distópico lançado em 2004 pelo escritor português José Saramago (1922-2010), vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998.
Na trama, o governo interpreta a votação maciça em branco como sinal de descrença popular e decide se retirar da cidade, isolando os habitantes. As autoridades tentam identificar quem estaria por trás da suposta conspiração, mas não encontram organização responsável: o que existe é uma decisão coletiva, aparentemente espontânea, de não escolher nenhum dos candidatos apresentados. Reaparecem personagens de Ensaio sobre a Cegueira, entre eles a mulher do médico, que passa a ser suspeita. Atentados e ações violentas são usados para criar medo e justificar medidas de repressão, enquanto a população mantém a recusa à lógica apresentada pelo poder. O desfecho é trágico e deliberadamente ambíguo: a experiência não gera revolução organizada nem programa político alternativo, mas uma recusa coletiva das opções oferecidas pelo sistema eleitoral.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a obra ajuda a pensar o momento brasileiro, em que votos brancos, nulos e abstenções podem atingir números recordes no segundo turno. O antropólogo Fred Lucio, professor da ESPM, afirma que Saramago não propôs o voto em branco como solução para a democracia, mas trouxe uma situação extrema para refletir sobre ela. Ele observa que quem vota branco ou nulo sai de casa para votar e, ainda assim, rejeita os candidatos disponíveis — diferentemente da abstenção. "O que estavam tentando expressar? Falta de identificação com as candidaturas?", provoca.
O jurista Pedro Henrique Benatto, professor na Universidade São Judas, diz que o livro critica o distanciamento entre cidadão e instituições e a dificuldade destas em lidar com o dissenso. Já o escritor Miguel Sanches Neto, professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa, classifica a obra como um dos romances alegóricos da fase madura de Saramago, em que o autor deixa de falar apenas de Portugal para tratar do mundo. Segundo ele, a metáfora serve a qualquer contexto contemporâneo ao chamar atenção para a fragilidade da democracia, que precisa ser reafirmada a todo momento.
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